
Vasco Abreu sentado no pedestal de não sei quem à entrada do Desportivo Lourenço Marques, actualmente Grupo Desportivo de Maputo, que hoje completa noventa anos de existência.
O dia 31 de Maio de 1921 é considerado a data em que o Desportivo de Maputo foi fundado. Até pouco após a Indepdnência de Moçambique em 1975, o clube ostentou o nome, não da cidade em si, mas do homem considerado historicamente uma referência por ter visitado e explorado a zona durante os meados do século XVI – um senhor comerciante qualquer chamado Lourenço Marques.
A cidade teve e tem grandes clubes que possuem um percurso e glórias de destaque. O Desportivo não fica atrás, em particular por ter sido um clube que cultivou o convívio e o desporto com uma atitude e uma abertura que não eram do seu tempo. Quando a raiva anti-colonial, anti-portuguesa e (a meu ver) racista e oportunista dos líderes da guerrilha, chegaram à cidade em meados de 1974, uma das consequências quase imediatas foi a sucessiva e metódica destruição de tudo o que fosse simbólico e substantivo de um passado que então era ainda presente, quase subitamente fora decretado proscrito.
Mais do que tudo, as pessoas foram o alvo de um regime que redefiniu a moçambicanidade nos seus próprios termos e que embarcou numa aventura sem precedente na sua história, cunhada nos tresloucados ditames dos ditadores criminosos Mao e Pol Pot, de virar o mundo do avesso e assim forjar o novo Homem Moçambicano. À guerra para atingir a autonomia dos portugueses, seguir-se-ia outra, agora para libertar o Sul de África do jugo do homem branco e os nascentes moçambicanos dos seus próprios fantasmas. A sociedade colonial, já de si em significativa mudança e sob pressão dos eventos, desmoronou-se numa questão de poucos meses.
Ficou um deserto, para ser colonizado pelos amigos socialistas e pelos Senhores do Poder.
O caso com os clubes, como o Desportivo, não foram excepção. As pessoas fugiram. ou foram-se embora, consoante a interpretação de cada um. Ficaram as instalações, as salas dos troféus recheadas, as memórias, alguma ambição, e a ideia de que havia um residual que talvez valesse a pena manter, todos sujeitos à nova realidade, que quase nada tinha que ver com o passado. O património não material de quase todos foi praticamente obliterado, esterilizado das ligações que alguns tinham com clubes portugueses e do seu passado. Por um tempo, fez-se uma reorganização à moda comunista, com a gestão dos clubes atribuídas a ministérios, ao exército e organizações afins.
Apesar de tudo, algo do passado ficou no Desportivo, fruto, alguns argumentam, talvez algo exaustivamente, das suas credenciais algo diferentes – de que não era tão racista como isso, de que não era tão colonialista como isso, de que continha elementos proto-independentistas. de que, num episódio que é célebre para quem conhecia bem o clube, se recusara filiar-se com um clube de Portugal.
Tudo isso, de alguma forma. me faz bocejar, ainda que invariavelmente os argumentos todos, de um lado e de outro da paliçada histórica e ideológica, possam ter algum fundamento.
De facto, creio que a única homenagem que conheço no clube, na forma de um pequeno monumento situado directamente em frente à entrada principal do clube (que foi rapidamente retirada e as inscrições retiradas do pedestal à picareta) terá sido dedicada ao homem que liderou o processo de que resultou que a identidade do clube não ficasse associada a um clube de Portugal.
Mas não sei. A minha amiga Lucília, que tem uma memória de elefante, pensa que possa ser dum governador-geral, Gabriel Teixeira, um madeirense, que ocupou a Ponta Vermelha durante vários anos, e que em 24 de Julho de 1949 inaugurou a então piscina olimpica. pois o busto, que se soltava e que eu uma vez atirei para a parte funda da piscina (ia levando uma coça do Faz-tudo e a seguir do pai Melo) era de um militar. Portanto não devia ser do Sr. Paulino dos Santos Gil, um dos grandes benefactores do clube de então, e que ofereceu o terreno onde ainda se situa o estádio de futebol que supostamente (e se assim, milagrosamente) ainda ostenta o seu nome.
A verdade é que eu ainda hoje não sei quem é, porque enquanto esteve lá, mesmo à frente de toda a gente, ironia das ironias, nunca prestei a atenção suficiente para sequer ler o que lá estava escrito.
É a estátua que se vê de lado, lá em cima, e à qual o então pequeno Vasco Abreu, da grande família do Desportivo dos Abreus, estava encostado quando o pai tirou a fotografia.
Naturalmente que não foi este exemplo, nem é este homem, aquilo que merecesse o mínimo respeito dos novos senhores do País. Pelo contrário. A linha argumentativa predilecta é que o que existia e o que foi feito foi ou roubado ao povo moçambicano ou extorquido pela via da repressão, tout court.
Portanto o que aconteceu, copiando dum termo que acho engraçado e que foi muito usado na altura da venda de uma certa barragem no Norte, terá sido apenas uma reversão.
Mas apesar de não ter sequer havido a pretensão de uma passagem de testemunho, antes uma tentativa “revolucionária” de refundação, ficou qualquer coisa. Alguém insistiu, e conseguiu, com que o clube não mudasse de nome, algo que em Maputo só conheço o caso do Ferroviário, outro grande clube moçambicano, que tinha por detrás o vasto complexo dos CFM, e o Clube Naval, que suponho era difícil chamar outra coisa qualquer. Houve ali um mínimo de evolução na continuidade, com o grande Sr. José Craveirinha, os Cabaço, o Sr. Gaspar e vários outros (essa história ainda tem que ser escrita, penso). Ficaram as cores alvi-negra na sua bandeira, e saiu uma águia e entrou outra. Para quem vivia a paranóia da simbologia, grandes concessões foram estas.
Mas, mais que tudo, ficou a vontade e o espírito.
Hoje, volvidos todos estes anos, e começando Moçambique a entrar numa fase de crescente normalidade, em que o passado cada vez mais dificilmente pode ser equacionado com a mesma têmpera com que foi nos anos loucos que sucederam imediatamente à Independência, regressa um maior equilíbrio. Maputo, agora correctamente, celebra o seu aniversário não quando Samora Machel proclamou num comício a sua mudança de nome, mas quando um colono qualquer, a mando de Lisboa, a elevou a cidade em 1887.
Assim, o Desportivo celebra hoje 90 anos desde que foi fundado.
Em Portugal, onde muitos dos antigos sócios e atletas passaram a viver após meados dos anos 70, ainda hoje há reuniões anuais do clube. O ano passado, um membro da actual direcção do Desportivo de Maputo esteve numa dessas reuniões. Ali, até sugeriu criar-se uma “Casa do Desportivo” de Maputo em Portugal. Foi um gesto simbólico, foi simpático até, mas tapar o fosso do que aconteceu não é coisa fácil, especialmente para este grupo de pessoas.
O que existe em Maputo não é ainda, e duvido que alguma vez o venha a ser, o Desportivo que eu conheci e onde cresci. O Desportivo era sobretudo as pessoas que o frequentavam, o que faziam e os valores que ostentavam. Não era sobre as instalações. Depois de quase quarenta anos, todos nós seguimos os respectivos percursos. A vida não pára. Mas há lá alguma coisa de nós todos que lá estivemos naquelas pedras e ainda nalgumas pessoas.
E vai haver sempre algo do Desportivo dentro de mim e de outros.
Por tudo isso, hoje considero apropriado fazer um brinde. A tudo o que foi, a tudo o que é.
E principalmente a tudo o que todos podemos vir a ser, neste caso nós e os nossos filhos.
Brindo, mais que aos 90 anos do Desportivo que foi Lourenço Marques e que é “de” Maputo, à resiliência dos ideais de competição sã, de integridade, de comunidade, de fair play e de excelência, que estavam na sua essência, valores que eu creio os actuais sócios e dirigentes do Clube sabem que existiram e que até, pelo seu valor intrínseco, os inspira.
Se de facto desses valores embuído, o Desportivo de Maputo nunca deixará de ser o que foi começando naquele fim de Maio de 1921, e continuará a ser, na grande capital e no país que é agora – e desde há 36 anos – dono do seu destino.
Com um pouco de sorte, conto estar por aí para assinalar os 100 anos da sua existência e dizer então, com um sorriso
Desportivo para sempre.