
Cozinhando uma sopa instantânea na tenda junto à praia na Ilha da Inhaca.
Uns dias de férias e calor infernal na última semana de Dezembro de 1974, acampado numa praia da Ilha da Inhaca com amigos. Tinha 14 anos de idade e levou horas à chata (tipo de barco) que cruzou a baía para chegar à ilha.
Nessa noite de 31 de Dezembro de 1974, à meia-noite, lá longe no horizonte, sentado na praia escurecida, iluminada apenas por uma fogueira, assisti ao espectáculo mágico do fogo de artifício, brilhante e avermelhado, a oscilar silenciosamente à distância, sobre os límpidos céus de Lourenço Marques, celebrando a entrada do ano de 1975: o ano da Independência de Moçambique.
1974 e 1975 foram anos verdadeiramente alucinantes, uma curiosa mistura do sublime e do infame.
Mas, políticas aparte, os meus focos eram só dois: estudar e nadar competitivamente.
No dia 19 de Fevereiro de 1975 saí de Lourenço Marques (fazia sol e 27 graus de temperatura nesse dia) num Boeing 747 da Tap com destino a Lisboa, onde cheguei na manhã seguinte. Na capital portuguesa a temperatura era de 11 graus, estava escuro e caía chuva miudinha. Toda a gente parecia estar vestida de preto, as ruas sujas, cartazes por toda a parte a apregoar frases revolucionárias.
Ao princípio da tarde desse dia, fui levado pelo Prof. José Sacadura e pela Dulce Gouveia, que viviam em Coimbra, através da indescritível confusão e perigo da Estrada Nacional 1, para Coimbra. Cheguei à cidade cerca das 5 da tarde e a primeira coisa que fiz foi ir à piscina municipal coberta nadar. No dia seguinte fui para o liceu, onde levou algum tempo primeiro que as senhoras da secretaria processassem a papelada para me encaixarem lá.
Em Fevereiro de 1975 a Coimbra que encontrei era uma cidadezinha fria, molhada, escura e sisuda, que participava contida e distanciadamente na então Revolução das Flores, cuja dinâmica se desenrolava essencialmente em Lisboa, e a que se assistia de Coimbra diariamente pela televisão através duma RTP instrumentalizada e governamentalizada, medíocre, a preto e branco. Nos intervalos dos debates e da peixarada política, assistíamos aos escaldantes episódios de Gabriela, Cravo e Canela e ao inenarrável A Vaca da Cornélia.
Definitivamente, já não estava em Moçambique.
O mais que se assistia de “revolucionário” em Coimbra passava-se creio que na universidade, um mundo relativamente estanque da cidade, onde se contavam espadas, saneavam-se professores e se contestava tudo e mais alguma coisa. No Liceu Infanta Maria tive professores que eram professores da universidade mas que para lá foram pois já não estavam para aturar aquilo.
Eu já conhecia Coimbra desde 1972, quando ali estive umas semanas, regiamente instalado no Hotel Avenida, para participar em competições de natação. Estive lá no ano seguinte. Sempre em Julho e Agosto, quando a cidade era quente, seca e solarenta. Agora conheci-a – e a Portugal – no inverno, sombria, quase sorumbática.
Coimbra entre 1972 e 1975 era uma vila comparada com o que é hoje. Junto ao Calhabé ainda havia quintas e ovelhas a pastar. A Sólum era quase um transplante no meio do mato, que rodeava o bairro. Era uma cidade pacatíssima, de província, com alguma mania de que ali residia uma elite e uma cultura aparte. Mas na prática era uma cidade normal. Como em toda a parte, encontrei lá muito boa gente e alguma que não prestava para nada.
Em Coimbra, fui estudar para o Liceu Infanta Dona Maria e nadar nas piscinas municipais da cidade. Vivi primeiro na Sólum e depois no Calhabé, o resto da família – os meus pais e sete irmãos – espalhados por todo o mundo.
Cedo se reuniu ali uma pequena comunidade de gente de Moçambique que nadava comigo. Cada um à sua maneira, procurava ajustar-se às circunstâncias loucas em que quase repentinamente nos encontrámos, todos longe das famílias, sem dinheiro, sem ousar pensar no dia seguinte, vivendo o dia a dia. Coimbra passou a ser a nossa casa e os nossos amigos a nossa família.
Vivi em Coimbra dois anos e sete meses, exactamente.
Em 20 de Setembro de 1977 saí de Coimbra num comboio da estação B, com destino a Lisboa. Depois de um mês de espera na ilha açoriana de São Miguel, onde estavam os meus pais, fui viver para os Estados Unidos da América, onde permaneceria nos 14 anos seguintes.
Após sair de Moçambique, não voltaria durante quase mais dez anos, até viajar até lá em 1984, por sugestão de Valeriano Ferrão, o primeiro embaixador moçambicano nos Estados Unidos da América.
Que me facultou um visto de entrada.
Para estrangeiro.