THE DELAGOA BAY COMPANY

Dezembro 20, 2010

A INCRÍVEL HISTÓRIA DO HÓQUEI MOÇAMBICANO (E PORTUGUÊS)

Filed under: HÓQUEI MOÇAMBIQUE, História do Hóquei em Moç — ABM @ 1:55 pm

(Grato ao Zé Carlos que, a propósito de uma fotografia do extinto Teatro Varietá na cidade de Maputo, chamou a atenção para o que o grande e lendário Alfredo Pereira de Lima, citado das suas monumentais obras Edifícios Históricos de Lourenço Marques – Pedras que já não falam –  relata em seguida, e que decalco com vénia do sítio Maputo 120 Anos). A adenda é minha.

A fachada do Teatro Varietá na Rua Araújo, hoje de Bagamoyo. O teatro foi demolido em 1967 e no mesmo lugar foram constrídos o Estúdio 222 e o cinema Matchedje (a designação anterior era Dicca).

O que era o Teatro Varietá, na Rua Araújo, com a sua curiosa arquitectura típica do começo do século a realçar a característica daquela artéria, onde tanta semelhança existe com New Orleans, foi em 1910 um rinque de patinagem.

A iniciativa ficou-se devendo a dois súbditos italianos, Pietro Buccelato, empreiteiro, e Angelo Brussoni, comerciante, que requereram à Câmara Municipal a sua construção em 16 de Maio de 1910, para a prática de uma modalidade desportiva que se afigurava então pouco dispendiosa e da qual os dois italianos eram grandes entusiastas.

Com um estrado de 800 metros quadrados, de planta rectangular de 20 x 40 metros, bar, salão de chá, etc, ao qual se acrescentou, depois, um pequeno palco, no interior do recinto, para música e concertos, foi o recinto aberto ao público no dia 16 de Julho de 1910 (há cem anos).

Esse rinque de patinagem, denominado desde logo de “Varietá” passou a registar enorme afluência de pessoas.

Nesse mesmo ano realizou-se ali um grande campeonato de hóquei em patins, renhidamente disputado, saindo vencedor o Grupo Lusitano, capitaneado pelo próprio Pietro Buccellato e do qual daziam parte, além de seu irmão Guiseppe, Ângelo Brussoni, Francisco Barreto, João de Aguiar Barbosa, Garcia de Carvalho e António Valente.

O rinque de patinagem “Varietá” foi, em Setembro de 1910, modificado com projecto para primeiro andar para, mais tarde, se poderem realizar espectáculos cinematográficos. Daí a transformá-lo num teatro foi outro passo.

Desta forma a patinagem, que se tornara numa verdadeira loucura entre os rapazes desse tempo,teve que ser interrompida para a construção do teatro, que passaria a manter o nome de Varietá.

INAUGURAÇÃO DO TEATRO VARIETÁ

O teatro, em cuja construção Pietro Buccellato pôs todo o seu entusiasmo, mandando vir da Itália grande número de estatuetas e vários objectos decorativos, foi inaugurado na noite de 5 de outubro de 1912, com a presença do Governador-Geral.

Numa tentativa arrojada, Pietro Buccellato contratou para a estreia de seu teatro da Rua Araújo uma companhia de ópera lírica italiana, cujas principais figuras eram a soprano Bianca Almazza e o tenor Franco Gregório.

Notícia da inauguração do Varietá na noite de 5 de Outubro de 1912 – feriado nacional português, para comemorar o golpe de Estado que derrubou a monarquia.

Para a récita de gala inaugural do teatro, foi escolhida a ópera O Barbeiro de Sevilha,de Rossini, em três actos. Essa Companhia deu o seu último espectáculo na noite de 31 de dezembro de 1913.

Mais tarde, realizou no Teatro Varietá uma série de concertos o barítono Alberto Terrasi, que preencheu a temporada artística de 1914.

Pelo Teatro Varietá passariam mais tarde as maiores figuras do Teatro Português, como Maria Matos e diversas companhias nacionais e estrangeiras do maior prestígio.

O NOVO RINQUE DE PATINAGEM

Em 1915, Pietro Buccellato, para não deixar arrefecer o entusiasmo dos jovens pela modalidade desportiva que acalentara em Lourenço Marques, construiu na retaguarda do seu teatro um novo rinque de patinagem onde os patinadores continuaram os seus renhidos desafios.

Esse rinque acabou por ser ultrapassado pelo tempo e levar outro destino.

O FAMOSO COMÍCIO DE 1923

Mas o Teatro Varitá, além do contributo que deu à cultura teatral em Lourenço Marques, foi também local favorito para reunião de comícios políticos, mais ou menos agitados, o mais acalorado dos quais foi, sem dúvida, o realizado em 19 de maio de 1923.

O pretexto da manifestação era exigir-se a denúncia pura e simples do “modus vivendi” com a união da África do Sul. Iam acesos os ânimos. E porque nessa questão se envolveram nomes respeitáveis de políticos da época.

OUTRO HISTÓRICO COMÍCIO

A 20 de fevereiro de 1933, realizou-se também no Varietá um novo e imponente comício, com a sala literalmente cheia. A finalidade era diferente do que ali se realizara dez anos antes, tratava-se desta vez de chamar a atenção dos poderes públicos para a solução prática a dar ao problema da necessidade da protecção necessária aos naturais da província e de olhar a sério para o futuro da sua população infantil. Não foi um movimento de insubordinação política que determinou este comício no Varietá, mas de simples reivindicação de uma comunidade de descendentes de colonos europeus pelo futuro da sua presença em Moçambique para cujo progresso pretendiam dar contribuição efectiva.

Varietá renovava as tradições do local,e durante cinqüenta e cinco anos, foi tudo, consoante o nome, incluindo lugar de comícios políticos. Por isso, naqueles tempos atrasados e ominosos em que ainda não havia strip-tease na Rua Araújo, nem sequer em Johannesburg, e para se ver uma mulher publicamente despida ainda era preciso ir a Paris, quando a divinal Mafalda se exibia no palco do Varietá transformado em Paraíso, o teatro estava à cunha e as senhoras iam ver aquela mulher famosa de cuja beleza deslumbrante a cidade inteira falava estupefata. Nunca visto!

Mudavam os tempos novamente. Vieram, já se disse, os Night-Clubs, os Cabarets e os Dancings, que povoaram a Rua Araújo e a encheram de letreiros limunosos, porteiros às portas tapadas com biombos opacos, cartazes com fotografias muito ousadas exibindo atrativos.

Com o desenvolvimento da cidade de Lourenço Marques, paralelamente à decadência da Rua Araújo que já não era frequentada pela sociedade da cidade, acabou por ser demolido em 1967. (fim)

O Varietá em 1967, ano em que foi demolido.

A MINHA ADENDA

Segundo uma cronologia da história da patinagem em Portugal, de que Moçambique fazia parte naquele tempo, foi em Lourenço Marques que se construiu o primeiro ringue de patinagem e se praticou a modalidade. Em Portugal continental propriamente dito, o primeiro recinto construído foi em 1912, quando “aparece o primeiro rinque, por iniciativa de Recreios Desportivos da Amadora, e o primeiro jogo, entre o Clube de Desportos de Benfica e aquele Clube da Amadora, e que o C. D. de Benfica venceu por 2-0.”

Mas há mais.

No seu excepcional blogue pessoal, essa figura incontornável deste desporto em Moçambique e em Portugal, Francisco Velasco, faz também referência ao assunto. Cita, por exemplo, uma publicação do SNECI, o clube que ajudou a levar a grandes vitórias no desporto a nível mundial, datada Junho de de 1955, onde se dizia o seguinte:

“Causaria certamente surpresa a muitos aqui em Moçambique residentes e certamente a todos que nos lerem na Metrópole, o conhecimento de que data de há cerca de 43 anos a prática do hóquei patinado nesta Província.

Na realidade a 5 de Outubro de 1912 – vai para 43 anos – inaugurou-se na Rua do Major Araújo o Teatro Varietá que ainda ali existe em funcionamento, agora como cinema.

Decorrido pouco tempo foi ali mandado construir um rinque para a prática do hóquei, rinque que foi o primeiro a ser construído em Lourenço Marques.

Era então de “bom tom” ir passar-se a noite no rinque do “Varietá” para assistir à prática do hóquei patinado.

Foram primeiros praticantes Germâno de Magalhães o grande internacional português há pouco falecido na Metrópole, G. B. Buccellato, o conhecido comerciante e industrial felizmente ainda entre nós, seu irmão já falecido, Francisco Barreto, já falecido e um outro antigo inspector dos CTT, Piedade Barreto, António Valente, actualmente administrador aposentado residindo na Metrópole, Luís de Aguiar Barbosa, ainda entre nós como funcionário dos SMAE, H. Edwards, A. Daintree, H. Scoones e Garcia de Carvalho.

Todos estes hoquistas de há mais de quatro décadas se podem ver nesta fotografia que nos foi gentilmente cedida pelo velho colono José Correia da Veiga, um moço de espírito com quem sempre encanta falar sobre os seus temas predilectos: “Era assim antigamente” ou “Lourenço Marques há 50 anos”.

Os primeiros hoquistas de Lourenço Marques.

Neste número especialmente dedicado aos nossos hoquistas e à sua digressão por terras da Metrópole julgámos do maior interesse arquivar esta fotografia, curioso subsídio para a história do hóquei em Moçambique».

ALGUNS CAMPEÕES MADE IN MOÇAMBIQUE

Alguns represntantes do hóquei em patins moçambicano integrados em representações portuguesas no hóquei mundial, e Campeões do Mundo:

1959 – Portugal (Matos (Campo de Ourique), Perdigão (Benfica), Edgar (Hockey de Sintra), António Alves (Porto), Velasco (Desportivo de Lourenço Marques), Carrelo (Desportivo de Lourenço Marques), Bouçós (Desportivo de Lourenço Marques), Fernando Adrião (Clube Futebol Benfica), Vaz Guedes (Campo de Ourique), Souto)

1961 – Portugal(Vítor Domingos (Hockey de Sintra), Moreira (Desportivo de Lourenço Marques), Urgeiro (Benfica), Pompílio (Hockey de Sintra), Fernando Adrião (Clube Futebol Benfica), Vaz Guedes (Campo de Ourique), Bouçós (Desportivo de Lourenço Marques), Perdigão (Benfica), Livramento (Benfica))

1963 – Portugal (Vítor Domingos (Hockey de Sintra), Moreira (Desportivo de Lourenço Marques), Vaz Guedes (Campo de Ourique), Fernando Adrião (Clube Futebol Benfica), Livramento (Benfica), Bouçós (Desportivo de Lourenço Marques), Eugénio Reis (Sporting), Leonel (Benfica), José António (CUF), Urgeiro (Benfica))

1965 – Portugal (Vítor Domingos (Hockey de Sintra), Moreira (Desportivo de Lourenço Marques), Vaz Guedes (Campo de Ourique), Leonel (Benfica), Fernando Adrião (Clube Futebol Benfica), Livramento (Benfica), Eugénio Reis (Sporting), Américo Casimiro, Catarino, Manuel Cardoso)

Os atletas de Moçambique eram peças fundamentais da selecção portuguesa.

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11 comentários »

  1. Ainda sobre o Varietá . . . me parece que o último arrendatário antes da demolição foi o Sr. Raul de Carvalho.

    Comentar por Abel de Azevedo — Dezembro 21, 2010 @ 12:13 am

    • Obrigado Abel, devagarinho construmos como foi…

      Comentar por Antonio Botelho de Melo — Dezembro 21, 2010 @ 12:35 am

    • Obrigado pela interessante informação, Abel.

      Comentar por ABM — Dezembro 21, 2010 @ 6:54 pm

  2. Fabuloso, este post! – ainda lá fui, ao Varietá, no tempo dos filmes do Cantiflas, da Marisol e do Joselito. Depois, ardeu…
    IO

    Comentar por IO — Dezembro 21, 2010 @ 10:45 pm

    • Eu lembro-me claramente de ter visto com uns 6 ou 7 anos o “Barrabs” – que no filme diziam “Barrbasse”….

      Comentar por Antonio Botelho de Melo — Dezembro 21, 2010 @ 10:53 pm

    • Isabela – obrigado!

      Comentar por ABM — Dezembro 23, 2010 @ 2:02 pm

  3. O Abel Azevedo disse bem acerca do ultimo arrendatario do teatro Varieta…..foi meu Pai RAUL DE CARVALHO

    Comentar por Maria Luiza Carvalho — Janeiro 24, 2011 @ 9:17 pm

    • Olá Maria Luiza, muito obrigado pela achega! se tiver algumas fotos do seu pai, do Varietá ou alguma história relacionada para aqui o povo ler, conte comigo, tenho um blogue só para estas coisas da história e as histórias de Moçambique… obrigado, ABM.

      Comentar por ABM — Janeiro 24, 2011 @ 9:53 pm

  4. A bem do rigor, um necessário esclarecimento sobre os moçambicanos Campeões do Mundo e da Europa mencionados nesta página. Conquistaram esses títulos em 1958 – Mundial do Porto, em 1959 – Europeu de Généve e em 1960 – Mundial de Madrid. Os nossos clubes na altura eram os seguintes: Eu, o Alberto Moreira e o Manuel Carrelo militávamos no Clube Ferroviário de Lourenço Marques, o Amadeu Bouçós no SNECI, (Sidicato Nacional dos Empregados do Comércio e da Indústria) e o Fernando Adrião no Grupo Desportivo da Malhangalene.
    Perdoem-me a intromissão mas estava a custar-me ler essas origens trocadas.

    Comentar por Francisco Velasco — Abril 14, 2011 @ 6:29 pm

    • Tive hoje conhecimento da publicação deste texto, decalcado na íntegra do livro “Edifícios Históricos de Lourenço Marques” cujo autor é o meu Pai, Alfredo Pereira de Lima.
      Reparo que referes teres transcrito o texto do portal Maputo120anos sem, contudo, fazeres qualquer tipo de indicação ao verdadeiro autor, não obstante na tua “fonte” estar bem explícita essa referência.
      Face à ausência dessa informação, que não é irrelevante, venho pedir-te a necessária e competente rectificação acrescentando a autoria do texto e citando ainda o nome do livro onde o mesmo se encontra incluído.
      Recordo-te que, na qualidade de herdeira do meu Pai, sou titular de um terço dos direitos de autor e representante dos meus irmãos para os restantes 2/3, pelo que todas as publicações de parte dos seus livros carecem da minha autorização prévia, concessão essa que, em momento algum, me recordo de te ter negado.
      “A César o que é de César”, sempre foi um dos meus lemas de vida e que admiti ser mais abrangente que aquilo que, infelizmente, constato ser.
      Cumprimentos.

      Comentar por Maria Cristina Fragoso Pereira de Lima Macedo — Novembro 29, 2012 @ 9:25 pm

      • Olá Cristina

        Esta transcrição do excelente texto do grande Sr Alfredo Pereira de Lima foi aqui colocada ao princípio da tarde do dia 20 de Dezembro de 2010. Confesso que na altura – há dois anos – ou não reparei (mas devia ter suspeitado) na autoria ou então achei suficiente a referência com ligação e tudo para o local “original” – onde está tudo referenciado. Por vezes transcrevo textos de outros lugares principalmente porque gosto mais de os ler aqui, que estão no sítio “certo” e em boa companhia. Concordarás que a pessoa, obra e memória de teu pai foram e são reverenciadas aqui, pela minha mão, pelo que, acredito, a chamada de atenção é relativamente extemporânea. Bastava uma curta nota privada a dizer para eu meter o nome do autor e a obra junto do texto, o que faço e faria em dois segundos sem qualquer problema. Ademais, o autor merece. Com muita amizade como sempre, António.

        Comentar por ABM — Novembro 29, 2012 @ 10:05 pm


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