THE DELAGOA BAY COMPANY

Maio 31, 2011

O GRUPO DESPORTIVO DE MAPUTO COMPLETA HOJE 90 ANOS

Filed under: 1920 anos, 2010 anos, Desportivo, L.MARQUES/MAPUTO, Vasco Abreu — ABM @ 3:56 am

Vasco Abreu sentado no pedestal de não sei quem à entrada do Desportivo Lourenço Marques, actualmente Grupo Desportivo de Maputo, que hoje completa noventa anos de existência.

O dia 31 de Maio de 1921 é considerado a data em que o Desportivo de Maputo foi fundado. Até pouco após a Indepdnência de Moçambique em 1975, o clube ostentou o nome, não da cidade em si, mas do homem considerado historicamente uma referência por ter visitado e explorado a zona durante os meados do século XVI – um senhor comerciante qualquer chamado Lourenço Marques.

A cidade teve e tem grandes clubes que possuem um percurso e glórias de destaque. O Desportivo não fica atrás, em particular por ter sido um clube que cultivou o convívio e o desporto com uma atitude e uma abertura que não eram do seu tempo. Quando a raiva anti-colonial, anti-portuguesa e (a meu ver) racista e oportunista dos líderes da guerrilha, chegaram à cidade em meados de 1974, uma das consequências quase imediatas foi a sucessiva e metódica destruição de tudo o que fosse simbólico e substantivo de um passado que então era ainda presente, quase subitamente fora decretado proscrito.

Mais do que tudo, as pessoas foram o alvo de um regime que redefiniu a moçambicanidade nos seus próprios termos e que embarcou numa aventura sem precedente na sua história, cunhada nos tresloucados ditames dos ditadores criminosos Mao e Pol Pot, de virar o mundo  do avesso e assim forjar o novo Homem Moçambicano.  À guerra para atingir a autonomia dos portugueses, seguir-se-ia outra, agora para libertar o Sul de África do jugo do homem branco e os nascentes moçambicanos dos seus próprios fantasmas. A sociedade colonial, já de si em significativa mudança e sob pressão dos eventos, desmoronou-se numa questão de poucos meses.

Ficou um deserto, para ser colonizado pelos amigos socialistas e pelos Senhores do Poder.

O caso com os clubes, como o Desportivo, não foram excepção. As pessoas fugiram. ou foram-se embora, consoante a interpretação de cada um. Ficaram as instalações, as salas dos troféus recheadas, as memórias, alguma ambição, e a ideia de que havia um residual que talvez valesse a pena manter, todos sujeitos à nova realidade, que quase nada tinha que ver com o passado. O património não material de quase todos foi praticamente obliterado, esterilizado das ligações que alguns tinham com clubes portugueses e do seu passado. Por um tempo, fez-se uma reorganização à moda comunista, com a gestão dos clubes atribuídas a ministérios, ao exército e organizações afins.

Apesar de tudo, algo do passado ficou no Desportivo, fruto, alguns argumentam, talvez algo exaustivamente, das suas credenciais algo diferentes – de que não era tão racista como isso, de que não era tão colonialista como isso, de que continha elementos proto-independentistas. de que, num episódio que é célebre para quem conhecia bem o clube, se recusara filiar-se com um clube de Portugal.

Tudo isso, de alguma forma. me faz bocejar, ainda que invariavelmente os argumentos todos, de um lado e de outro da paliçada histórica e ideológica, possam ter algum fundamento.

De facto, creio que a única homenagem que conheço no clube, na forma de um pequeno monumento situado directamente em frente à entrada principal do clube (que foi rapidamente retirada e as inscrições retiradas do pedestal à picareta) terá sido dedicada ao homem que liderou o processo de que resultou que a identidade do clube não ficasse associada a um clube de Portugal.

Mas não sei. A minha amiga Lucília, que tem uma memória de elefante, pensa que possa ser dum governador-geral, Gabriel Teixeira, um madeirense, que ocupou a Ponta Vermelha durante vários anos, e que em 24 de Julho de 1949 inaugurou a então piscina olimpica.  pois o busto, que se soltava e que eu uma vez atirei para a parte funda da piscina (ia levando uma coça do Faz-tudo e a seguir do pai Melo) era de um militar. Portanto não devia ser do Sr. Paulino dos Santos Gil, um dos grandes benefactores do clube de então, e que ofereceu o terreno onde ainda se situa o estádio de futebol que supostamente (e se assim, milagrosamente) ainda ostenta o seu nome.

A verdade é que eu ainda hoje não sei quem é, porque enquanto esteve lá, mesmo à frente de toda a gente, ironia das ironias, nunca prestei a atenção suficiente para sequer ler o que lá estava escrito.

É a estátua que se vê de lado, lá em cima, e à qual o então pequeno Vasco Abreu, da grande família do Desportivo dos Abreus, estava encostado quando o pai tirou a fotografia.

Naturalmente que não foi este exemplo, nem é este homem, aquilo que merecesse o mínimo respeito dos novos senhores do País. Pelo contrário. A linha argumentativa predilecta é que o que existia e o que foi feito foi ou roubado ao povo moçambicano ou extorquido pela via da repressão, tout court.

Portanto o que aconteceu, copiando dum termo que acho engraçado e que foi muito usado na altura da venda de uma certa barragem no Norte, terá sido apenas uma reversão.

Mas apesar de não ter sequer havido a pretensão de uma passagem de testemunho, antes uma tentativa “revolucionária” de refundação, ficou qualquer coisa. Alguém insistiu, e conseguiu, com que o clube não mudasse de nome, algo que em Maputo só conheço o caso do Ferroviário, outro grande clube moçambicano, que tinha por detrás o vasto complexo dos CFM, e o Clube Naval, que suponho era difícil chamar outra coisa qualquer. Houve ali um mínimo de evolução na continuidade, com o grande Sr. José Craveirinha, os Cabaço, o Sr. Gaspar e vários outros (essa história ainda tem que ser escrita, penso). Ficaram as cores alvi-negra na sua bandeira, e saiu uma águia e entrou outra. Para quem vivia a paranóia da simbologia, grandes concessões foram estas.

Mas, mais que tudo, ficou a vontade e o espírito.

Hoje, volvidos todos estes anos, e começando Moçambique a entrar numa fase de crescente normalidade, em que o passado cada vez mais dificilmente pode ser equacionado com a mesma têmpera com que foi nos anos loucos que sucederam imediatamente à Independência, regressa um maior equilíbrio. Maputo, agora correctamente, celebra o seu aniversário não quando Samora Machel proclamou num comício a sua mudança de nome, mas quando um colono qualquer, a mando de Lisboa, a elevou a cidade em 1887.

Assim, o Desportivo celebra hoje 90 anos desde que foi fundado.

Em Portugal, onde muitos dos antigos sócios e atletas passaram a viver após meados dos anos 70, ainda hoje há reuniões anuais do clube. O ano passado, um membro da actual direcção do Desportivo de Maputo esteve numa dessas reuniões. Ali, até sugeriu criar-se uma “Casa do Desportivo” de Maputo em Portugal. Foi um gesto simbólico, foi simpático até, mas tapar o fosso do que aconteceu não é coisa fácil, especialmente para este grupo de pessoas.

O que existe em Maputo não é ainda, e duvido que alguma vez o venha a ser, o Desportivo que eu conheci e onde cresci. O Desportivo era sobretudo as pessoas que o frequentavam, o que faziam e os valores que ostentavam. Não era sobre as instalações.  Depois de quase quarenta anos, todos nós seguimos os respectivos percursos. A vida não pára. Mas há lá alguma coisa de nós todos que lá estivemos naquelas pedras e ainda nalgumas pessoas.

E vai haver sempre algo do Desportivo dentro de mim e de outros.

Por tudo isso, hoje considero apropriado fazer um brinde. A tudo o que foi, a tudo o que é.

E principalmente a tudo o que todos podemos vir a ser, neste caso nós e os nossos filhos.

Brindo, mais que aos 90 anos do Desportivo que foi Lourenço Marques e que é “de” Maputo, à resiliência dos ideais de competição sã, de integridade, de comunidade, de fair play e de excelência, que estavam na sua essência, valores que eu creio os actuais sócios e dirigentes do Clube sabem que existiram e que até, pelo seu valor intrínseco, os inspira.

Se de facto desses valores embuído, o Desportivo de Maputo nunca deixará de ser o que foi começando naquele fim de Maio de 1921, e continuará a ser, na grande capital e no país que é agora – e desde há 36 anos – dono do seu destino.

Com um pouco de sorte, conto estar por aí para assinalar os 100 anos da sua existência e dizer então, com um sorriso

Desportivo para sempre.

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14 comentários »

  1. A estátua, se a memória não me falha, é de Paulino dos Santos Gil, grande benemérito e fundador (?) do nosso Desportivo.

    Comentar por Helena Carvalho Chaves — Maio 31, 2011 @ 8:55 am

    • Desfazendo a interrogação: sim, fundador.

      Comentar por Ricardo dos Santos Gil — Novembro 8, 2011 @ 12:54 pm

  2. Tem piada, não me lembro nada desta foto. O chapéu então, fica a matar!! Obrigado pela escolha.
    Quanto ao busto que estava à entrada, é de um Senhor chamado Paulino Santos Gil, que também
    deu o nome ao Estádio de futebol. Agora, tens de perguntar aos mais antigos o motivo para lá
    o busto. Que ele foi Presidente do Desportivo muitos anos, sei eu. Julgo que tenha algo a ver
    com a construção das instalações e do campo de futebol, que acho que foi no seu tempo. A
    família Santos Gil era muito conhecida e, para quem se lembra, até existia um prédio na baixa
    que tinha o nome da família.
    Abraço.

    Comentar por Vasco Abreu — Maio 31, 2011 @ 9:22 am

  3. O busto era, salvo erro, do Capitão-de-mar-e-guerra Gabriel Maurício Teixeira, Governador-Geral de Moçambique no final dos anos 40 e na primeira metade dos anos 50. Se atentarem na imagem, vê-se que é de alguém fardado, com “direito” ao uso de dragonas.
    Julgo saber que cumpriu dois mandatos. Era natural da Madeira e foi casado com uma senhora de Matosinhos. Terá precedido no cargo a Sarmento Rodrigues.
    O nome de Paulino Santos Gil foi atribuído ao complexo desportivo por ter sido ele a fazer a doação dos terrenos onde foi erigido.
    Tudo isto sujeito a confirmação.
    Beijo aos dois.

    Comentar por Lucília Vieira — Maio 31, 2011 @ 10:02 am

  4. Tens razão Lucília, o Governador era o Gabriel Teixeira, madeirense como dizes, numa altura em
    que eles estavam nos cargos mais importantes de Moçambique. O Arcebispo, o Governador de Distrito, o
    Comandante da Capitania e, se não estou em erro o Engº Pinto Teixeira dos CFM, eram todos
    madeirenses. O meu avô paterno também nasceu na Ilha e era amigo deles todos.
    Beijinho para ti também.

    Comentar por Vasco Abreu — Junho 2, 2011 @ 10:25 am

  5. eu tenho uma ideia juntamente com os sócios, patrocinadores e os adeptos e a massa associativa podemos fazer uma campanha nacional para pedirmos fundos e construir um novo rosto de desportivo no próximos anos. Olha Crespo exibiste numa das suas candidaturas uma mapa da possível nova estrutura desportiva eu em parte estou a espera de se materializar, somos grandes e precisamos nos manter grandes. Ao meu Clube de Coracao Desportivo de Maputo. aqui Armindo Mangumbule

    Comentar por Armindo Mangumbule — Julho 5, 2011 @ 10:36 am

  6. vamos pessoal construir um novo desportivo faca sua parte. SOMOS OS GRANDES

    Comentar por Armindo Mangumbule — Julho 5, 2011 @ 10:39 am

  7. A estátua é do meu tio-avô Paulino dos Santos Gil … rectificação: o meu tio-avô, não deu APENAS o terreno… e conservou o nome, e manterá, pois a história não se apaga. Existe também a Rua Paulino dos Santos Gil, como existe o prédio Paulino dos Santos Gil. …. ou seja, não resistiu “milagrosamente”.

    Comentar por Ricardo dos Santos Gil — Novembro 8, 2011 @ 12:35 pm

  8. “um senhor qualquer chamado Lourenço Marques”, era piloto de navegação, explorador e traficante de escravos….. “A baía onde se encontra hoje Maputo já fazia parte de mapas datados de 1502, e a cidade herdou o seu nome de Lourenço Marques, o primeiro navegador e piloto português a fazer um reconhecimento profundo em 1544 (Em Portugal reinava D. João III), da região ao sul conhecida pelos locais como Baía dos Mpfumos ou Baía dos Chefes, mais tarde conhecida pela Baía da Lagoa (Delagoa Bay para os Ingleses), que se tornou palco de disputas e intrigas internacionais devido à sua localização estratégica, e que depois, entre outros nomes, foi chamada Baía de Lourenço Marques e ainda Baía do Espírito Santo. Após a independência, mudou para o nome mais nativo de Baía do Maputo”.

    Comentar por Ricardo dos Santos Gil — Novembro 8, 2011 @ 12:49 pm

  9. E já agora sabem porque é que o clube tinha (e tem) a Águia no seu emblema?

    Comentar por Ricardo dos Santos Gil — Novembro 8, 2011 @ 12:50 pm

  10. Se quiserem saber mais sobre o fundador do nosso clube, visitem:
    http://joaogil.planetaclix.pt/lou1.htm
    e também
    http://www.macua.org/livros/PAULINODOSSANTOSGIL.htm

    Comentar por Ricardo dos Santos Gil — Novembro 8, 2011 @ 12:56 pm

    • Obrigado Ricardo, não há na família fotografias de Paulino dos Santos Gil?, não creio ter visto uma até agora, o que é uma pena. ABM

      Comentar por ABM — Novembro 8, 2011 @ 1:12 pm

  11. Sim existem fotos, Eu tenho algumas em meu poder, Uma até é do casamento do tio Paulino com a Jeannete, cujo casamento terá sido por volta de 1910.Tenho ainda uma foto de família com eles e filhos.
    Possuo ainda outra tirada antes da sua ida para LM, feita,na phot,Lisboa de J,S,Pimenta, Tenho ainda fotos que são de 1925 onde estão os filhos José, Telma e Maturi,
    São fotos que me dão orgulho em pertencer a uma família que trabalhou em prol da *sua terra*-Mocambique- e que outros ajudaram a destruir…

    Comentar por carlos alberto dos santos gil — Outubro 21, 2013 @ 8:08 am


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