THE DELAGOA BAY COMPANY

Dezembro 1, 2011

BRAGA BORGES EXPLICA AS CORES DO SPORTING DE LOURENÇO MARQUES

Muito grato ao João Cabrita.

Na sequência da entrevista de Eusébio à revista do semanário Expresso de Lisboa, a Única, Braga Borges, que é seu contemporâneo dos tempos do Sporting de Lourenço Marques, escreveu uma notinha que merece ser lida. Eu já a havia recebido por várias vias (o meu obrigado aos que me enviaram), mas escolhi, com vénia, colocar a nota, tal como publicada ontem, 30 de Novembro de 2011, em Maputo, no jornal O Canal de Moçambique.

Para o exmo. Leitor ampliar o texto e fotografia em baixo, prima na imagem duas vezes com o rato do seu computador.

A 1ª parte de 2.

A 2ª parte de 2.

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8 comentários »

  1. Uma intervenção muito esclarecedora por parte do amigo Braga Borges que além de se basear em datas e fotos incontornáveis, teve o condão de me empurrar a vir a terreiro e filosofar à minha maneira. O racismo é parte integrante dos Sistemas Coloniais que proliferaram e ainda proliferam pelo mundo inteiro e assumem formas diversificadas, nuns casos às claras, tal com o célebre e aberrante Apartheid sul-africano. Todavia, o racismo mais destruidor e desmoralizante era o menos visível e subreptício, tão característico das nossas ex-colónias.

    Éramos todos irmãos, do Minho até Timor, uns mais outros menos e, nesta última faixa, os pretos eram aos milhões, facto de que nem sequer nos apercebíamos. Entrei na escola primária e 90% era negritude à volta de mim, numa idade em que não distinguíamos cores… entrei no liceu e não tive, que me lembre, qualquer preto como colega. Tinham ficado pelo caminho, sem condições económicas para avançar!

    O Eusébio, parece-me, está a ser mais papista que o papa, talvez tentando criar um enredo de juventude traumatizada para dar “cor” e dramatismo à sua mais que extraordinária vida desportiva, ainda hoje mediática. Não tinha necessidade disso, mais a mais porque ele, em consciência, “tem” de saber perfeitamente que nos clubes de Moçambique não havia o racismo que apregoou. O acervo fotográfico existente do desporto moçambicano, e não só, é prova disso mesmo.

    Este potente pontapé dado pelo nosso “king” do futebol, falhou completamente, passou por cima da trave da baliza, e esfumou-se para lá da bancada de topo, para fora do estádio, para o esquecimento!

    E é lá que deve ficar

    Comentar por Francisco Velasco — Dezembro 1, 2011 @ 8:25 pm

    • Muito grato pelo oportuno comentrio, que partilho.

      Comentar por Antonio Botelho de Melo — Dezembro 1, 2011 @ 8:57 pm

  2. Que memória tão curta! Fico fascinado com todos aqueles que conheceram África sem racismo, tenho no entanto dúvidas que alguma vez lá tenham estado.
    Se assim foi andaram muito tempo “distraídos”, ou praticavam as poucas modalidades que aos africanos negros eram permitidas, futebol, basquetebol e pouco mais. Esquecem voluntariamente ou mais uma vez por pura “distração” todas as outras que lhes estavam vedadas como o ténis , automobilismo, motociclismo, ginástica , patinagem entre outros e até em parte a minha modalidade, a natação. Já sei! Vem já a conversa o nome do nosso saudoso Rui Abreu, por acaso amigo de família e um daqueles exemplos que não confirma a regra.
    Fico no entanto com a “pulga atrás da orelha” em relação à oportunidade destes comentários, pensando cá com os meus botões se isto terá alguma relação com o último resultado do clube do “king” com com o dos “viscondes”. Talvez… quem sabe..!

    Luís Lamego

    Comentar por Luís lamego — Dezembro 2, 2011 @ 9:41 am

    • Olá Luis,

      Acho que acertaste na questão da “oportunidade dos comentários”. Quanto ao resto, copio para aqui um comentário que fiz em resposta ao comentário do nosso amigo da caneta René Boezaard (holandês, não conheceu Moçambique antes da Independência) de que cada um parecia ter a sua verdade na questão de haver racismo em relação ao Eusébio no SPorting por ele (Eusébio) ser preto num clube de brancos (pois essa é a questão, não o racismo em geral): “Não sei René. As coisas eram como eram no tempo colonial e o facto é que tipicamente as cidades eram esmagadoramente habitadas por brancos. Logo, a maioria dos clubes situavam-se nas cidades e nas perifierias, que eram esmagadoramente habitadas pela população de raça negra. Em termos de sócios, os clubes reflectiam essa realidade (falo dos anos 60 e 70) mas NÃO (e aí concordo com o Sr. Braga Borges) em termos de atletas e muito menos de atletas de raça negra de talento no futebol, que na minha opinião, podiam ir para onde bem quisessem. Sim, os atletas negros (as suas famílias) tipicamente eram muito mais pobres pelas razões sócio-económicas conhecidas. Mas para teres ideia, eu, que sou branquinho da Silva e que sempre vivi na Polana, nadava no Desportivo, e sempre só tive um fato de banho. A minha roupa tinha duas mudas, um par de sapatilhas e um de sapatos. A ideia de que os brancos viviam num mar de luxúria e os negros num mar de miséria é extremamente relativa e deve ser contextualizada, o que, por razões ideológicas e de perspectiva, tende a ser descurado. A maior parte dos brancos que iam viver para Moçambique iam com uma mão à frente e outra atrás e a riqueza que acumulavam era acumulada através do trabalho. Até quase aos anos 1970 não havia uma universidade em Moçambique – nem para brancos nem para pretos. Adicionalmente, tirando o futebol, a maior parte dos desportos praticados eram praticados por brancos, por razões mais culturais dos brancos de Moçambique que outra qualquer. Em Moçambique praticava-se muito mais desporto e fazia muito mais parte da cultura local e da rotina das pessoas que em Portugal, mesmo ainda hoje. A população negra de Moçambique nem por isso praticava desporto, apesar de nos anos 60 a situação estar a mudar muito rapidamente. Por exemplo, no Distrito de Lourenço Marques em finais dos anos 60 o desporto já era uma parte importante do currículo escolar, o que em Portugal não acontecia. Tendo dito isto, creio que, claro que, na estrutura social e de poder os negros moçambicanos não tinham quase nenhum voto na matéria. Eram cidadãos de 2ª classe e frequentemente desrespeitados. Eu creio que isso se alteraria até ao final dos anos 70, tivesse o arranjinho colonial perdurado mais uns tempos até a uma independência que não havia dúvida havia de acontecer e teria de acontecer. Mas tudo acabou com um enorme “bang” em 1974, sob a égide do Comité Central da Frelimo. Voltando aos clubes, lembro-me de no princípio dos anos 70 o Desportivo ter feito esforços para recrutar mais sócios, não descurando especificamente os sócios de todas as proveniências raciais e sócio-económicas, que era algo que especificamente me lembro. Se não me engano as quotas nessa altura eram 100 escudos por ano, o que era praticamente de borla. Não sei como era no Sporting em termos de sócios. Mas imagino que havia clubes (Clube de Pesca, Clube Marítimo, Clube Militar, Clube de Golfe da Polana, Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, Grémio) não houvesse muitos sócios negros, mesmo para os padrões económicos mais elevados dos brancos, eram clubes caros e de elite. Mas mesmo aí duvido que o critério de acesso fosse o da cor de pele. Acho que era mais a côr do dinheiro. E esta é a “minha” verdade.” Quanto à natação, que ambos conhecemos, sim, quase não havia nenhum nadador negro em LM nos anos 60 e 70 – mas isso era “racismo”? explica lá isso. Afinal, o que é “racismo” para ti? ainda hoje se fores a Maputo, a natação é um desporto urbano e de elite. E no nosso tempo a elite era esmagadoramente branca. Como acima refiro, os padrões de prática desportiva eflectiam os padrões sócio-económicos que sim, reflectiam uma estrutura inerentemente racista. Mas não por si só e em absoluto. No resto de Moçambique hoje em dia praticamente não se nada, em boa parte simplesmente porque as piscinas que há são as que se fizeram há 50-60 anos. E porque é imensamente mais barato jogar à bola ou correr do que jogar ténis, correr carros, nadar ou jogar golfe. No caso acima abordado, estamos ainda por cima a falar do Eusébio, um expoente de talento que marcou o mundo. A ideia de que ele terá sido maltratado ou menosprezado por ser preto(que é mulato, caso não saibas, o pai dele era white de Angola), ainda por cima no futebol, cujas putativas barreiras raciais já haviam sido brilhantemente escancaradas por muitos outros antes dele, é um pouco peregrina. Que havia (e há, não te enganes) racismo nem é tanto a questão. Em 1959 o Sporting de Lourenço Marques não devia ter um sócio preto. Mas o Eusébio ter sido prejudicado por isso? Diz-me o que pensas e um abraço. ABM

      Comentar por ABM — Dezembro 2, 2011 @ 10:15 am

  3. Olá António,

    Foi um prazer ler o seu comentário, (que como tudo o que escreve é verdadeiro e elucidativo). Por isso partilho a sua opiniao sobre o que escreveu.
    Aproveito a ocasiao para lhe transmitir o meu respeito e admiracao por tudo o que fez e com certeza continuará a fazer neste Blog maravilhoso que é o DB.
    Nao o conheco pessoalmente mas o António, assim como a sua família foram, sao e serao sempre uma referencia de respeito, carinho e admiracao para mim.

    Um abraco, (desde a Alemanha onde resido há 28 anos),de amizade de um Lourenco Marquino.

    José Viegas

    Comentar por José Viegas — Dezembro 3, 2011 @ 9:24 am

  4. António,

    joguei futebol na Académica, e depois no Desportivo em 1971; Lamento informar que não verefiquei algo de racismo. Aproveita para perguntar ao Sr. José viegas se uma irmã com o nome, Ana Paula da Silveira Viegas, morou em Lourenço Marques e em Nacala,e estudou em Nampula; caso afirmativo solicito que me informe pelo Hotmail ou pelo telemóvel com o nº 913335336.

    OBRIGADO: a António Botelho de Melo, penso que te lembras da minha pessoa pois jogamos no mesmo clube (Desportivo), como treinador tivemos o Sr. Serafim Baptista.

    Comentar por Ferreira Pinto — Dezembro 8, 2011 @ 6:08 pm

    • Olá Joaquim, eu nadei, nunca joguei nada a não ser ao berlinde… 🙂 a mensagem fica assim e quem souber melhor responderá. Um abraço grande. ABM

      Comentar por ABM — Dezembro 8, 2011 @ 6:33 pm

    • Sr. Ferreira Pinto, lamento dizer-lhe que a resposta é negativa. O nosso nome de Família é Fonseca Viegas; (o que é curioso é que tenho uma irma que se chama Ana Paula).

      José Viegas

      Comentar por José Viegas — Dezembro 9, 2011 @ 9:54 pm


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