THE DELAGOA BAY COMPANY

Dezembro 3, 2011

O GRANDE ALBERTO DIAS FALA SOBRE O RACISMO NO DESPORTO EM MOÇAMBIQUE NO SEU TEMPO

Alberto Rodrigues, 2º da esquerda com a enorme estrela na t-shirt, com a equipa de basquet séniores do Desportivo LM, que treinou na época 1974-1975.

Muito grato ao Rogério Carreira, que enviou a nota com o comentário de Alberto Dias e ainda mais as fotos, rapinadas do seu grande sítio Roger Tutinegra.

A propósito ainda da entrevista que Eusébio deu à revista Única, e que já mereceu um comentário de Braga Borges (ambos reproduzidos na totalidade nesta casa), em baixo o precioso testemunho de Alberto Dias, de quem me lembro quando treinador no Desportivo.

Para encaixar” aqui, fiz uma edição menor, sem tocar no que de substantivo é dito:

Na segunda-feira passada ao […] ouvir o Dr. Dias Ferreira afirmar que “os racistas são aqueles que dizem que os outros é que são racista” é uma forma pedante de tornar as vítimas em réus, manifestou uma completa ignorância da vivência nas ex-colónias portuguesas.

Tenho 75 anos de idade, poucos anos mais que o Eusébio.

Joguei contra ele nos primeiros jogos que fez pelo Sporting Clube de L.M. em seniores.

Eu jogava modestamente o futebol no também modesto Grupo Desportivo Indo-Português, pois sou de ascendência do antigo Estado da Índia, onde também inicialmente havia um certo separatismo que com o tempo se foi esfumando.

Em 1951, o Indo-Português acabou com a secção de basquetebol, e o clube para onde eu gostaria de ter ido jogar seria para o Sporting de L.M. mas era como Eusébio disse, o Sporting nessa época era efectivamente um clube que só aceitava brancos nas suas hostes, havia uma excepção que era um misto que passava por branco de nome Elísio Pereira. Era efectivamente conhecido também pelo clube dos polícias e só podia ir para a polícia quem tinha feito o serviço militar – que estava vedado aos não brancos, salvo alguns que passavam como tal. Eu fui à inspecção militar e fui dispensado por excesso de contingente, claro que tudo isto antes de ter começado a guerra colonial.

Os da minha geração lembram-se bem que era efectivamente assim.

Com o aparecimento do Eusébio e outros as coisas começaram a modificar-se bastante e as mentalidades a alterar-se um bocado.

A título de curiosidade, informo também que havia um outro clube que tinha o mesmo procedimento que era o Malhangalene, clube do bairro de mesmo nome que era administrado por indivíduos idos de Portugal, claro que depois modificaram os procedimentos.

O grande rival do Sporting era o Grupo Desportivo de L.M. que foi filial do Benfica, e os curiosos que vejam as fotos antigas destes dois clubes e onde militavam os não brancos numa amálgama de cores.

Estou a escrever esta mensagem, porque me disseram que um familiar do Dr. Mário Soares, parece que de nome Barroso, que decerto também não conheceu as realidade das ex-colónias, que disse num jornal que não é verdade o que o Eusébio disse.

Atenciosamente,

Alberto Carmo Rodrigues

(fim)

O cartão de Sócio de Mérito da Associação Distrital de basquet de Lourenço Marques de Alberto Rodrigues, 1967.

 

Alberto Rodrigues à direita. Quem souber quem é o senhor à esquerda, por favor mande uma nota.

 

Alberto Rodrigues com...

 

A equipa de basquet séniores do Sporting Clube de Lourenço Marques, época 1957-1958. A quem souber os nomes, por favor envie uma nota. De pé, da esquerda: P1, P2, P3, P4, P5 e P6. De joelhos: J1, Alberto Dias, J2 e J3.

 

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10 comentários »

  1. Vou dar uma ajuda, mas não completa.
    1ª Alberto com o Eduardo Branco
    2ª Alberto com o Acursio
    3ª Em pé: Humberto, Bagueiro, Labisturi, Helder Silva, P5, Armando?.
    Em baixo: Bébé Carreira, Alberto, Claudino e Adão Ribeiro.
    Um abraço

    Comentar por Oscar Soeiro — Dezembro 3, 2011 @ 11:02 pm

    • Sr. Oscar Soeiro mais uma vez agradeo com vnia de nariz no cho… ABM

      Comentar por Antonio Botelho de Melo — Dezembro 3, 2011 @ 11:14 pm

    • Sou o Mata, colega do Alberto, júniores clube Ferroviário, ficamos em 2º.lugar nesse ano.Lembro que fazia parte da equipa o Pereira Leite, filho do director dos CFM, o Humberto e não me lembro dos restantes . (Todos os meus arquivos da m/ participação desportiva, futebol, basquete e ciclismo, roubaram quando me assaltaram a casa no Bairro Sarmento Rodrigues, só me resta as medalhas do ciclismo pelo que, desde já, agradeço que quem tiver alguma dessa recordações o favor de me enviar.
      Ao contrário do 2ª.comentário do Oscar Soeiro, quem está na 2ª.foto c/ o braço no ombro do Alberto parece-me ser o Luiz Lopes e não o Acúrcio. Quanto à terceira foto confirmo estar correcto.Não sei também quem è o P5.
      Gostava também de saber aonde para essa BOA malta. Atualmente eu resido em Armanção de Pêra,-Agarve, e preciso de parceiro para bater umas bolas de ténis. SAUDADES………….. Leonardo Castro da Mata…(leonardocastromata@gmail.com) Telem. 933 565 102

      Comentar por Leonardo Castro da Mata — Dezembro 4, 2011 @ 6:47 pm

    • Com reservas digo que P5 é o Guilherme (cujo apelido não arrisco) e o P6 é de facto o Armando Silva (apelido correcto)

      Comentar por António Manuel Ruas Alves (Tomané) — Junho 20, 2013 @ 2:36 pm

    • Vou ajudar nos nomes dos jogadores das equipas de basquetebol do Sporting e do Ferroviário: Primeiro, de pé, da esquerda para a direita: Humberto Pinto, Octávio Bagueiro, Labistour Alves, Hélder Silva, Guilherme Soares e Armando Silva (Bosco). Agachados, da esquerda para a direita: Bebé Carreira, Alberto Rodrigues, Claudino Ribeiro e Adão Ribeiro.

      Comentar por Alexandre Franco — Junho 4, 2016 @ 7:08 pm

  2. Parte do que está aqui dito possui laivos de verdade, verificando-se contudo uma grande confusão no respeitante a datas. Antes de mais um abraço ao Alberto Rodrigues, que treinou as minhas primas Abrilete e Maria da Luz e talvez tenha jogado com o meu primo Leonel. Cruzávamos-nos no Clube e envio-te as minhas saudações desportivas.

    Colonialismo e Racismo são as faces da mesma moeda. Ambos são dinâmicos, isto é, transformam-se com o decorrer dos anos, diluindo-se ou tornando-se virulentos e basta uma década para verificarem modificações substanciais. Veja-se que hoje, uma grande potência mundial passou, no espaço de 10 anos, de uma nação de liberdades constitucionais adquiridas, para uma em que as mesmas já começaram a ser definitivamente ignoradas ou destruídas, mas esse é outro assunto…

    Neste caso do Eusébio, temos de circunscrevermos-nos aos anos em causa: 1959, 1960 em que ele comprovadamente jogou em júniores nesses anos e em seniores em 1961. As fotos de Braga Borges demonstram isso e que não havia o tal apregoado “racismo”. Ponto final.

    Reportas-te, Alberto, a 1951. Esses foram tempos diferentes e anteriores aos em causa, e se formos por aí, mais uma década atrás, vamos dar com filas de pretos, acorrentados, que eu via passar à frente da minha porta, quando acordava de manhã cedo para ir para a escola. Caminhavam para trabalho forçado. E se recuares uns tempos mais, vê-los-íamos a serem “caçados” para serem enviados e leiloados em praças espalhadas por certas nações esclavagistas de vários continentes.

    Até 1954, o Clube Ferroviário possuía um elenco de hoquistas brancos, se descontarmos o companheiro Labistour. Dois anos depois, 1956, quando assumi o cargo de treinador do CFLM, integrei na equipa atletas não brancos, provenientes das Reservas e Júniores. Tanto quanto pude testemunhar, o elitismo e também o racismo esfumaram-se por esta altura, com a naturalidade do passar de anos de uma sociedade colonialista a braços com a sua própria dinâmica transformadora. Em 1958 não se podia falar de racismo nos clubes. Presumo eu que as condições económicas e o estado psicológica dos pretos, continuamente minimizados e inferiorizados, forçavam-nos à não prática desportiva nos clubes da cidade, com excepção da bola que era praticado por toda a cidade em espaços devolutos que iam capinando para conseguirem uma espécie de campos de futebol.

    Quanto ao serviço militar, quero recordar aqui que a ordem colonial estipulava que só brancos e pretos é que prestariam serviço nas forças armadas. Estava excluídos todos os outros. Sucede porém, Alberto, que dois anos antes de teres sido dispensado por excesso de contingente, também eu o fui apesar de ter sido aprovado na inspecção médica. Como me conheciam do desporto só me tiraram o peso e a altura e carimbaram imediatamente a minha integração. FIZERAM BORRADA pois isto tudo sucede quando os “satiaghras” criavam problemas em Dadra e Nagar Aveli, e o Antoninho, o tal dos plainites, deu ordem às estruturas militares para incorporarem todos, mestiços, indianos e chineses e estes todos seriam aquartelados à parte, e não iam para Boane.

    O problema deles, em relação a mim, é que sendo branco eu iria ficar num aquartelamento de não brancos e isso fez-lhe cócegas na cabecinha e eliminaram-me por excesso de contingente, não se apercebendo que quando eu fiz fila para o exame médico, todos atrás e à frente eram meus companheiros de escola e de folguedos desde tenra idade, onde eu me sentia bem pois nunca usei óculos de cor. Reagi, e o General Raul Martinho, comandante militar, teve de me enfrentar, mas esta é uma história que contarei noutro local.

    Não sei porque tu, caro Alberto, foste dispensado dois anos depois de mim, o teu caso talvez fosse diferente, apesar de sermos conterrâneos, natos no mesmo Estado da índia. Ou se calhar seria mesmo excesso de contingente… Olha que o Amadeu Bouçós e o Alberto Moreira não escaparam, tiveram férias em Boane, donde se ausentavam frequentemente, largando armas e bagagens, para ir representar a Selecção Nacional… Acho que nem sequer aprenderam a dar tiros! 🙂

    Um grande abraço, amigo Alberto Rodrigues, felicitando-te pela tua carreira dedicada ao Basquetebol.

    Posto isto, reitero que «o pontapé do Eusébio falhou o alvo, o que era raro, e bola lá se perdeu por cima da bancada, para fora do Estádio em direcção ao esquecimento onde deverá permanecer», como já tive ocasião de escrever no blogue Delagoa Bay Company.

    Comentar por Francisco Velasco — Dezembro 4, 2011 @ 2:12 am

    • Francisco, pela importância vou colocar esta “notinha” autónoma. ABM

      Comentar por ABM — Dezembro 4, 2011 @ 2:55 pm

  3. […] do que está aqui dito [comentário de Alberto Dias, ver AQUI]  possui laivos de verdade, verificando-se contudo uma grande confusão no respeitante a […]

    Pingback por FRANCISCO VELASCO COMENTA SOBRE O RACISMO NO DESPORTO EM MOÇAMBIQUE NO TEMPO COLONIAL « THE DELAGOA BAY COMPANY — Dezembro 4, 2011 @ 3:52 pm

  4. José Graça Peixe e meu pai…

    Comentar por carla peixe — Julho 2, 2012 @ 5:45 pm

  5. Na foto em que se vê Alberto Rodrigues a receber uma taça, quem faz a entrega é o falecido (18-9-2010, em Oeiras) meu amigo, Eduardo Branco, grande jogador de basket do Desportivo de L.Marques, onde jogou, por exemplo, com o Carlos Alemão.
    Um abraço desportivo, António Júlio Peixe.

    Comentar por António Júlio N. dos Santos Peixe — Setembro 11, 2014 @ 11:02 pm


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