THE DELAGOA BAY COMPANY

Dezembro 4, 2011

FRANCISCO VELASCO COMENTA SOBRE O RACISMO NO DESPORTO EM MOÇAMBIQUE NO TEMPO COLONIAL

O superlativo Francisco Velasco.

Em baixo, o comentário do grande campeão de hóquei Francisco Velasco, transcrito de outro local neste blogue (o comentário de Alberto Dias, em relação a uma entrevista de Eusébio à Revista Única no início de Novembro de 2011 e à reacção de Braga Borges).

 

Parte do que está aqui dito [comentário de Alberto Dias, ver AQUI]  possui laivos de verdade, verificando-se contudo uma grande confusão no respeitante a datas.

Antes de mais um abraço ao Alberto Rodrigues, que treinou as minhas primas Abrilete e Maria da Luz e talvez tenha jogado com o meu primo Leonel. Cruzávamos-nos no Clube e envio-te as minhas saudações desportivas.

Colonialismo e Racismo são as faces da mesma moeda. Ambos são dinâmicos, isto é, transformam-se com o decorrer dos anos, diluindo-se ou tornando-se virulentos e basta uma década para verificarem modificações substanciais. Veja-se que hoje, uma grande potência mundial passou, no espaço de 10 anos, de uma nação de liberdades constitucionais adquiridas, para uma em que as mesmas já começaram a ser definitivamente ignoradas ou destruídas, mas esse é outro assunto…

Neste caso do Eusébio, temos de circunscrevermo-nos aos anos em causa: 1959, 1960 em que ele comprovadamente jogou em júniores nesses anos e em séniores em 1961. As fotos de Braga Borges demonstram isso e que não havia o tal apregoado “racismo”. Ponto final.

Reportas-te, Alberto, a 1951. Esses foram tempos diferentes e anteriores aos em causa, e se formos por aí, mais uma década atrás, vamos dar com filas de pretos, acorrentados, que eu via passar à frente da minha porta, quando acordava de manhã cedo para ir para a escola. Caminhavam para trabalho forçado. E se recuares uns tempos mais, vê-los-íamos a serem “caçados” para serem enviados e leiloados em praças espalhadas por certas nações esclavagistas de vários continentes.

Até 1954, o Clube Ferroviário possuía um elenco de hoquistas brancos, se descontarmos o companheiro Labistour. Dois anos depois, 1956, quando assumi o cargo de treinador do CFLM, integrei na equipa atletas não brancos, provenientes das Reservas e Júniores. Tanto quanto pude testemunhar, o elitismo e também o racismo esfumaram-se por esta altura, com a naturalidade do passar de anos de uma sociedade colonialista a braços com a sua própria dinâmica transformadora. Em 1958 não se podia falar de racismo nos clubes. Presumo eu que as condições económicas e o estado psicológico dos pretos, continuamente minimizados e inferiorizados, forçavam-nos à não prática desportiva nos clubes da cidade, com excepção da bola que era praticado por toda a cidade em espaços devolutos que iam capinando para conseguirem uma espécie de campos de futebol.

Quanto ao serviço militar, quero recordar aqui que a ordem colonial estipulava que só brancos e pretos é que prestariam serviço nas forças armadas. Estava excluídos todos os outros. Sucede porém, Alberto, que dois anos antes de teres sido dispensado por excesso de contingente, também eu o fui apesar de ter sido aprovado na inspecção médica. Como me conheciam do desporto só me tiraram o peso e a altura e carimbaram imediatamente a minha integração. FIZERAM BORRADA pois isto tudo sucede quando os “satiaghras” criavam problemas em Dadra e Nagar Aveli, e o Antoninho, o tal dos plainites, deu ordem às estruturas militares para incorporarem todos, mestiços, indianos e chineses e estes todos seriam aquartelados à parte, e não iam para Boane.

O problema deles, em relação a mim, é que, sendo branco, eu iria ficar num aquartelamento de não brancos e isso fez-lhe cócegas na cabecinha e eliminaram-me por excesso de contingente, não se apercebendo que quando eu fiz fila para o exame médico, todos atrás e à frente eram meus companheiros de escola e de folguedos desde tenra idade, onde eu me sentia bem pois nunca usei óculos de cor. Reagi, e o General Raul Martinho, comandante militar, teve de me enfrentar, mas esta é uma história que contarei noutro local.

Não sei porque tu, caro Alberto, foste dispensado dois anos depois de mim, o teu caso talvez fosse diferente, apesar de sermos conterrâneos, natos no mesmo Estado da índia. Ou se calhar seria mesmo excesso de contingente… Olha que o Amadeu Bouçós e o Alberto Moreira não escaparam, tiveram férias em Boane, donde se ausentavam frequentemente, largando armas e bagagens, para ir representar a Selecção Nacional… Acho que nem sequer aprenderam a dar tiros! (risos).

Um grande abraço, amigo Alberto Rodrigues, felicitando-te pela tua carreira dedicada ao Basquetebol.

Posto isto, reitero que «o pontapé do Eusébio falhou o alvo, o que era raro, e bola lá se perdeu por cima da bancada, para fora do Estádio em direcção ao esquecimento onde deverá permanecer», como já tive ocasião de escrever [aqui] no blogue The Delagoa Bay Company.

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7 comentários »

  1. Olá a todos os amigos da verdade.

    Li a entrevista do Sr. Eusébio à qual já se fez referência nestes escritos e gostava de mencionar o seguinte ponto por eu achar ser merecedor de saliência e que é o Sr. Eusébio dizer que “não gosto do Sporting, no meu bairro (em Mocambique) era o clube da elite, dos polícias e dos racistas”.

    Nessa frase o Sr. Eusébio diz o que disse primariamente do ponto de vista pessoal, as razões motivadoras para ele dizer o que disse é um assunto de teor privado e baseado na sua própria experiência de vida, acrescentando mais à frente, razões mitigantes e explicativas para justificar dizer o que disse.

    Se existem ou não factores antecedentes para o Sr. Eusébio falar como fala, só ele saberá ao certo, mas de qualquer modo e para já na minha humilde opinião o benefício da dúvida deverá ser dado ao Sr. Eusébio. Em inglês há um ditado que diz assim: “don’t talk too much until you walk a few miles on another man’s shoes”. Em português talvez seja algo como “não fales muito até sabermos um pouco mais da outra história”.

    No meu caso, justifico defender o que diz o Sr Eusébio. Pode não ser a verdade total para alguns de nós, mas ao mesmo tempo haverá outros que concordam plenamente. A verdade daquilo que ocorreu e ocorre está totalmente vinculada à percepção individual de cada um de nós, basta perguntar a umas tantas testemunhas sobre qualquer ocorrência; como foi? e teremos tantas versões como testemunhas, e cada uma com o seu próprio grau de autenticidade.

    Durante os meus tempos em Mocambique, terra onde nasci, filho de gente branca e criado numa casa na Av. Dr. José Serrão perto da esquina com a Av. Augusto Castilho (antiga Av. Elias Garcia) a respeitar tudo e todos, incluindo as diferentes raças, religiões e costumes, onde os meus Pais e Avós recebiam com todo o respeito visitas de todas as cores raciais, apesar de na vasta maioria os amigos serem de raça branca. Sabiamos que havia pessoas racistas e alguns eram nossos vizinhos, apesar disso, todos os míudos dum bairro em que residiam pessoas de todos os níveis sociais, desde Doutores, Enfermeiras e Farmacistas, Engenheiros, Electricistas, Polícias, Pilotos da DETA, Industrialistas, Construtores, Carpinteiros, Sapateiros, Janitores e Varredores de Rua, Rapazes de Recados, Padeiros e até Drogados, Preguiçosos e Desempregados, etc. Viviam na maior parte brancos, mas tínhamos vizinhos chineses, indianos, mulatos, mais outras misturas raciais mas relativamente poucos pretos, convivíamos e dávamo-nos bem e quem era amigo, seja lá com quem fosse, visitávamo-nos uns aos outros.

    Frenquentei a escola e pratiquei desporto, entre outras actividades sociais desde meados dos anos 60 até meados dos anos 70 e lembro-me de alguns casos de racismo, mas maioritariamente em entidades privadas. Na minha experiência, da parte política e administrativa colonial havia um grande ímpeto para normalizar relações inter- raciais. Desde que ingressei na Escola Primária João Belo em 1967, passando pela Joaquim Araújo e até ir para a Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque em 1974, foi sempre em classes integradas e mais tarde já se comecou a notar professores de raças não brancas a dar aulas. Por exemplo, lembro-me bem na Joaquim Araújo do Prof. Cabral de Educação Física (raça preta) e na Mouzinho de Albuquerque nas aulas de Tecnologia Mecânica, Francês e Desenho Técnico ter professores de várias raças, sempre respeitados por todos os estudantes fossem eles de que cor fossem, e ao nível de clubes e associações que frequentei, notei casos de racismo praticados por brancos e noutros totalmente o oposto.

    Era só isto que queria dizer, mas sublinho que não disse o que acabei de dizer para defender nem atacar o que o Sr. Eusébio disse, simplesmente para que em principio se respeite a história de cada um, encaixe ela ou não na nossa maneira de ver as coisas.

    Agradeco a oportunidade.

    Zé Carlos Ferreira.

    Comentar por Ze' Carlos — Dezembro 5, 2011 @ 3:47 pm

    • Zé Carlos, dado que não tens computador com acentos, revi a tua resposta, não te choques… ABM

      Comentar por ABM — Dezembro 5, 2011 @ 8:24 pm

  2. caros amigos e desportistas do Desportivo L . M ;Quando sai da Académica para o Desportivo em 1972, verifiquei que não havia racismo, em
    nenhuma equipe; por tal motivo contrario e afirmo que não havia tal registo.

    Comentar por Ferreira Pinto — Dezembro 5, 2011 @ 7:27 pm

  3. Obrigado Caro Antonio (ABM), por razoes de expediente nao costumo reprogramar o teclado do PC pra’ Portugues. De qualquer modo agradeco-te a paciencia 🙂

    Um abraco
    Ze’ Carlos.

    Comentar por Ze' Carlos — Dezembro 12, 2011 @ 9:46 am

    • Eu sei o que ter um teclado em ingls e tentar escrever em portugus. Foi um prazer e escreve sempre….. 🙂

      Comentar por Antonio Botelho de Melo — Dezembro 12, 2011 @ 9:47 am

  4. Um abraço amigo Alberto Rodrigues. Lembro-me bem de si, como jogador de basquete (e julgo que mais tarde treinador) por ter ministrado preparação física à equipa em que jogava, sendo treinador o “Linda”, salvo erro.

    Quanto ao Francisco Velasco, na passada sexta-feira (dia 16 de Dezembro) foi lembrado por mim e pelo Vasco Parreiral Vaz, no almoço comemorativo que se seguiu às suas provas de doutoramento pela Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Univeridade de Coimbra. Foi o Vasco (ou melhor, o Doutor Vasco Parreiral Vaz) meu aluno, quando mufana, numa classe de ginástica educativa, no CFM. Vim a encontrá-lo, mais tarde, como meu aluno na referida Faculdade.

    Sempre prestável, dedicado e muito educado, aliás características que herdou do seu falecido Pai, o Senhor Vaz, seccionista da Secção de Hóquei do CFM, também recordado com muita saudade nessa hora de grande júbilo para o Vasco e para mim, pelos laços de amizade que une quem viveu nessa saudosa e linda Lourenço Marques. Ele que desdiga essa amizade. Não se atreverá a fazê-lo, com medo que eu lhe puxe as orelhas….

    Embora o meu convívio com o Francisco Velasco pouco tenha passado da minha grande admiração por esse grande nome do Hóquei moçambicano, português e mundial, daqui lhe envio um abraço.

    Comentar por Rui Baptista — Dezembro 17, 2011 @ 8:21 pm

  5. … – Eu viví em Lourenço Marques, desde 3 de Maio de 1963, a 11 de janeiro de 1975. Estive em vários percursos de vida e em todos eles conviví, com gente de várias raças e credos. Ter amigos não é uma questão de cor, mas sim de carácter. Sei muito bem que há carácter em qualquer ser humano, indepencente da sua cor ou de credo. Se se respeitar o indivíduo, tem-se respeito. O tal de eusébio, fala por despeito dele próprio, pois nem agora ainda consegue articular frases, em português, saídas da sua autoria. Como tal “papagaio” apenas repete o que insistivamente lhe cantam. Eu conhecí-o na Mafalala, onde só o chamavam para jogar, porque sabia dar pontapés na bola. Fico por aqui…

    Manuel Natálio

    Comentar por Manuel Natálio — Junho 12, 2012 @ 2:33 pm


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