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Janeiro 25, 2012

EUSÉBIO AOS 70: RETROSPECTIVA DA FIFA

Filed under: 2010 anos, Eusébio da Silva Ferreira, FUTEBOL MOÇAMBIQUE — ABM @ 9:09 pm

Eusébio assinala o seu 70º aniversário hoje, 25 de Janeiro de 2012.

O sítio oficial da FIFA hoje publicou este texto, não assinado, que reproduzo em baixo.

Uma nota: não entendo bem como é que a história se encaixa (leia o exmo. Leitor em baixo) mas havia uma senhora em Lourenço Marques chamada Rute Malosso, ela ainda é viva e reside aqui em Portugal. Só havia uma família Malosso em Moçambique.

Título: Mais um golo do Pantera Negra

Em pleno agito cultural da década de 1960, os felinos estavam na moda entre a aristocracia europeia. O pintor espanhol Salvador Dalí não se separava de Babou, a sua jaguatirica de estimação; os tigres viraram presentes de luxo para socialites na Rússia; e dois excêntricos australianos transformaram Christian, um leão que logo ganharia fama internacional, em morador de uma badalada rua de Londres.

Um húngaro de 61 anos não tinha a menor intenção de aderir ao clube dos bichanos quando saiu da sua casa em Lisboa para cortar o cabelo no final da década de 60. Ao lado dele na barbearia, porém, estava sentado um antigo conhecido que exaltava uma pantera negra que havia visto durante uma viagem a Moçambique. Entusiasmado, o homem embarcou para Maputo cinco dias mais tarde. Lá chegando, encantou-se com o predador.

No entanto, a tal “pantera negra” fazia as suas vítimas em campos de futebol, e não na selva. O nome por trás do apelido era Eusébio. E o homem que estava à sua caça era o técnico do Benfica, Béla Guttmann. O húngaro havia recebido a dica do brasileiro José Carlos Bauer, a quem havia treinado no São Paulo alguns anos antes.

O caminho do garoto de 17 anos rumo ao Estádio da Luz, porém, não seria nada tranquilo. Eusébio jogava pelo Sporting Lourenço Marques, time da capital moçambicana que formava atletas para o tradicional Sporting Lisboa, que, por sua vez, já havia chegado a um acordo para contratar o atacante. No entanto, Guttmann foi ágil e rapidamente propôs um contrato que garantia ao humilde desconhecido o mesmo salário do ídolo Mário Coluna, meio-campista nascido em Moçambique que havia se firmado como um dos melhores jogadores da Europa pelo Benfica. Durante a negociação, o irmão de Eusébio exigiu o dobro. Guttmann aceitou prontamente.

O resto da história parece roteiro de filme de espião. Eusébio não cruzou o portão de embarque no Aeroporto Internacional de Maputo para entrar no avião que o levaria a Lisboa: foi conduzido pessoalmente por um automóvel a fim de evitar o risco de ser avistado por outras pessoas. Temendo uma tentativa de sequestro por parte do Sporting, o Benfica enviou o jovem para um lugar remoto no Algarve assim que ele desembarcou na capital portuguesa. Passou dez dias por lá. E caso as investigações do Sporting houvessem sido suficientemente minuciosas a ponto de checarem as listas de hóspedes dos hotéis do sul do país, não encontrariam o menor vestígio: Eusébio havia dado entrada usando o nome Ruth Malosso!

Esforço recompensado

Foi trabalhoso trazer o africano, mas as Águias logo perceberam que havia valido a pena. A ideia original era que Eusébio treinasse com os reservas, mas os planos mudaram depois do primeiro treino para a nova temporada, em junho de 1961. “Se tiver de ser eu que seja, mas alguém precisa sair para ele jogar”, declarou o camisa 9 e capitão benfiquista José Águas.

Águas, Mário Coluna, Joaquim Santana, José Augusto e Domiciano Cavém formavam um envolvente quinteto ofensivo que, cerca de duas semanas antes, havia levado o Benfica a uma vitória por 3 a 2 sobre o Barcelona na final da Copa dos Campeões. Como Guttmann justificaria que um deles fosse tirado da equipe titular às vésperas da decisão do Torneio Internacional de Paris contra o excepcional Santos de Pelé?

A justificativa apareceu quando o Benfica perdia por 5 a 0 — dois de Pelé, dois de Pepe e um de Coutinho. Guttmann soltou a fera e Eusébio anotou impressionantes três gols em 17 minutos, além de ter sofrido um pênalti desperdiçado por José Augusto. No dia seguinte, o rosto do tímido moçambicano que os torcedores do Benfica ainda não conheciam estava na capa da prestigiada revista France Football. A manchete da publicação francesa havia ignorado a vitória santista por 6 a 3 para estampar “Eusébio 3 x 2 Pelé”.

Ao final daquela temporada, Eusébio ostentava uma média de 1,4 gols por jogo na primeira divisão lusitana e, com o placar da final da Copa dos Campeões contra o Real Madrid empatado em 3 a 3, marcou duas vezes para garantir ao Benfica um surpreendente 5 a 3 e a manutenção do título continental. Era o início de uma lua de mel que duraria 15 anos, ao longo dos quais Eusébio conquistou 11 edições do Campeonato Português e cinco da Taça de Portugal, acumulando 638 gols em 614 partidas pelo time lisboeta.

A impressionante eficiência do atacante era fruto de um físico fenomenal. Eusébio corria cem metros em 10,8 segundos — o recorde mundial à época era apenas oito décimos de segundo mais rápido. Além disso, o craque possuía a força de um super-herói dos quadrinhos e o equilíbrio de uma bailarina, assim como uma poderosa impulsão que fazia com que o jogador de 1,75 m levasse a melhor sobre adversários muito mais altos. De acordo com o companheiro de seleção portuguesa Matateu, atacante que também nasceu em Moçambique, o pé direito de Eusébio tinha uma força comparável à dos punhos de Cassius Clay, o Muhammad Ali, pugilista nascido apenas oito dias antes do moçambicano e que também era idolatrado na África nos anos 1960, durante os quais venceu todas as suas 29 lutas, a maioria por nocaute.

Guttmann, por sua vez, preferia comparar a arma preferida do atacante a um famoso satélite soviético. “Ver a bola sair da chuteira de Eusébio era como assistir ao lançamento espacial do Sputnik”, explicou o húngaro. “Além de chutar forte, ele batia na bola com muita precisão. Também era incrivelmente rápido, explosivo e um grande driblador. Era um jogador completo. A contratação do Eusébio foi a maior vitória que o Benfica jamais conquistou contra o Sporting.”

Herói de duas nações

Embora as atuações de Eusébio pelo Benfica tenham dividido a cidade, o desempenho dele com outra camisa vermelha uniram um país. Ele assinalou 41 gols em 64 jogos pela seleção de Portugal e, embora tenha tido somente uma oportunidade de mostrar o seu irrepreensível talento em um grande torneio internacional, o atacante aproveitou a experiência ao máximo.

De fato, Eusébio brilhou na Copa do Mundo da FIFA Inglaterra 1966 marcando dois gols contra o Brasil na primeira fase e selando a eliminação do país que buscava o terceiro título mundial consecutivo, colocando Portugal nas quartas de final da competição. A equipe comandada pelo brasileiro Otto Glória enfrentava a Coreia do Norte e sofreu três gols nos primeiros 25 minutos, mas a atuação inspirada do craque garantiu a virada lusitana para 5 a 3. Na semifinal contra a Inglaterra, o técnico Alf Ramsey contava com dois ótimos zagueiros, Bobby Moore e Jack Charlton, mas estava tão preocupado que incumbiu Nobby Stiles da marcação individual de Eusébio. O português conseguiu chegar às redes, embora de pênalti, mas os ingleses venceram por 2 a 1.

“O Eusébio era um jogador realmente magnífico”, afirmou Charlton. “Ele era muito veloz, forte, tinha um equilíbrio perfeito e era bom de bola. E sabia chutar, também. Para mim, ele era tão bom quanto o Pelé. O nosso técnico não havia posto marcação individual em ninguém. Ele não fez isso contra o (Wolfgang) Overath na final e nem contra o Pelé (no Mundial de 1970), então isso mostra o quanto ele respeitava o Eusébio.” Stiles também passou a respeitá-lo após os 90 minutos daquela noite de julho. O volante do Manchester United perdeu nada menos do que quatro quilos caçando Eusébio pelo gramado de Wembley.

Apesar da derrota para o selecionado britânico, o camisa 13 de Portugal se despediu do torneio em grande estilo. Na decisão do terceiro lugar, contra a União Soviética, Eusébio abriu o placar na vitória lusa por 2 a 1 e acabou na artilharia da competição com nove gols, recebendo a Chuteira de Ouro adidas. “Sempre tive muito orgulho de receber um prêmio”, comentou o atacante, cuja genialidade foi recompensada com a Bola de Ouro em 1965. “Porque não era só para mim, mas para Portugal e para toda a África.”

Além de fazer a alegria de torcedores portugueses e africanos, Eusébio jogou em times do Canadá, México e EUA antes de pendurar as chuteiras em 1979, encerrando uma carreira em que disputou 745 jogos com 733 gols comemorados.

Nesta quarta-feira, o mundo do futebol se une a Eusébio para comemorar mais uma vez. Hoje o craque completa 70 anos. Feliz aniversário, Pantera Negra!

(fim)

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1 Comentário »

  1. http://vmais.rr.sapo.pt/default.aspx?fil=273690

    Comentar por Carlos Schmidt — Janeiro 26, 2012 @ 1:54 am


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