THE DELAGOA BAY COMPANY

Março 23, 2012

SERTÓRIO SILVEIRA: UMA NOTA SOBRE O PROFESSOR RUI BAPTISTA

Sertório Silveira reflecte sobre o Prof. Rui Baptista, em baixo.

A propósito de uma longa entrevista que fiz ao Dr. Rui Baptista (RB), que o Tomané transcreveu aqui no blogue “The Delagoa Bay”, cumpre-me tecer alguns considerandos a respeito da si por poderem não ser do conhecimento da generalidade dos leitores.

Tive o privilégio de o conhecer e tornar-me seu amigo ao longo dos anos.

Em minha opinião, RB foi uma das figuras mais carismáticas do Desporto moçambicano, quer como professor, quer como dirigente desportivo, quer, ainda, como comunicador dos ideais que sempre defendeu com marcante empenho e superior conhecimento de causa, seja através de escritos jornalísticos, de conferências, seja, ainda, como praticante de pesos e halteres (Culturismo) em que se sagrou campeão de Moçambique, na categoria de médios.

Por esse facto, ter eu ficado chocado e até revoltado com a sua não nomeação para presidente do Conselho Provincial de Educação Física (CPEF) depois de ter a sua nomeação sido assinada pelo ministro do Ultramar Silva Cunha (faltando apenas ter o visto do Tribunal de Contas, aliás uma questão de escassos dias).

Acresce que a sua nomeação chegou a ser noticiada pelo jornal publicado na cidade da Beira: “Vai ser nomeado presidente do Conselho Provincial de Educação Física de Moçambique Rui ‘Vares’ Baptista”. Assim, tal e qual com a troca de Vasco, seu segundo nome próprio, por “Vares”. Em seu lugar foi nomeado Noronha Feio, vindo da então Metrópole, a quem o Desporto de Moçambique nada de nada devia. Sendo RB à data Inspector de Educação Física Escolar da Mocidade Portuguesa pediu a sua exoneração, tendo recebido um louvor no Boletim Oficial de Moçambique.

Chegou RB a Lourenço Marques em 1957 – depois de formado pelo INEF e ter cumprido o serviço militar como aspirante, alferes e tenente miliciano em Tomar – contratado como professor de Educação Física da “Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque”, tendo desenvolvido, para além dessa docência, um notável acção no desporto local e uma intensa actividade no campo da Ginástica Correctiva com pacientes de Lourenço Marques, alguns deles deslocando-se à África do Sul, a fim de serem consultados pelo mais famoso cirurgião ortopedista, o Dr. David Roux, que indicava o seu nome para os serviços de reabilitação necessários.

No ano a seguir à sua chegada à cidade do Índico (1958) foi convidado para preparador físico dos nadadores laurentinos que se deslocariam à Metrópole para disputarem os Campeonatos Nacionais da modalidade. Em representação do CPEF, foi nomeado chefe da respectiva Embaixada, embora não pertencesse aos quadros do CPEF, mas sim o seu colega Igeménio Tadeu.

Desde sempre, apaixonado pela sua dama, a Educação Física, foi dirigente desportivo e preparador físico de várias modalidades desportivas (basquete, futebol, hóquei em patins, etc.) tendo desenvolvido paralelamente uma acção constante na preparação de várias classes de ginástica do Clube Ferroviário.

Entretanto, teve, também, uma acção importante no campo literário, através da publicação de vários livros no âmbito, por exemplo, dos Pesos e Halteres e da Educação Física como ciência ao serviço da saúde pública. Desempenhou a função de presidente da Secção de Ciências da Sociedade de Estudos de Moçambique, onde proferiu duas conferências no âmbito da Educação Física, tendo entrado, assim, o Desporto e a Educação Física pela porta grande dessa notável instituição cultural e científica.

Em 1975 fez parte do grande contingente de Portugueses que se viram coagidos a deixar Moçambique, onde tinha fixado residência. Foi colocado em Coimbra, como professor efectivo de Educação Física do Liceu D. João III (anos depois, Escola Secundária José Falcão). Foi também docente do ISEF da Universidade do Porto e docente da Faculdade de Educação Física e Ciências do Desporto da Universidade de Coimbra. Na cidade das margens do Mondego continuou a desenvolver uma intensa actividade com artigos de revistas da especialidade, a efectuar conferências e palestras, por exemplo, nos Rotários e na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, a escrever livros e a publicar artigos de opinião nos jornais “Diário de Coimbra”, “Correio da Manhã”, “O Primeiro de Janeiro” e o “Público”. É co-autor do blogue De Rerum Natura, de há tempos para cá. Também em Coimbra desenvolveu uma intensa actividade no campo da Reabilitação Física (de que fora professor no ISEF do Porto) tendo assinado convenções com diversos organismos públicos.

Quase a terminar, e volvendo a um saudoso passado das margens do Índico, como escrevi no início, conheci este Professor, em Lourenço Marques, tendo tido o grato prazer de entrevistá-lo para o jornal “Diário de Lourenço Marques”, a propósito de uma série de entrevistas, “O desporto nas Escolas”, com a participação de uma dúzia de personalidades ligada ao desporto, na sua maioria professores de Educação Física. Desde essa altura, ficámos amigos para todo o sempre, merecendo-me o maior respeito e consideração pela sua humildade, cultura e simpatia, para além do seu incontestado valor profissional, muito lamentando, como tal, a gritante injustiça de não ter sido nomeado, à última hora, presidente do CPEF (quando tudo estava encaminhado nesse sentido) por ele ter sido a personalidade mais bem posicionada para o desempenho desse elevado cargo, sobejamente demonstrado através da sua extrema dedicação ao Desporto Moçambicano.

Sertório da Silveira

Dezembro 28, 2011

RUI BAPTISTA DESTACA PAPEL DE SERTÓRIO SILVEIRA NA IMPRENSA DESPORTIVA DE MOÇAMBIQUE

Este texto é da autoria do Sr. Professor Rui Baptista.

Recorte de um jornal de Lourenço Marques, 1961, da autoria de Sertório da Silveira.

Tem o nosso bom amigo Tomané desenvolvido, no “Delagoabay”, uma obra digna do maior louvor na divulgação do desporto moçambicano que dá razão plena ao dizer popular de que “recordar é viver duas vezes”.

Ora, no relicário das nossas recordações, ou seja daqueles que vivemos essas páginas gloriosas como destacados ou simples praticantes das muitas suas modalidades desportivas, ou apenas como seus espectadores devotados, julgo (ou melhor, tenho a certeza!) que cumpre dar o devido destaque ao papel de uma certa imprensa moçambicana na sua divulgação.

Assim, em nome de uma necessária, ainda que mesmo tardia, justiça, seja-me permitido dar realce ao papel desempenhado pelo jornalista Viriato da Silveira em notícias sobre modalidades fora do âmbito do chamado desporto-rei. Reporto-me, essencialmente, aos artigos sobre a natação que são um reportório histórico valioso sobre os feitos de atletas moçambicanos que pulverizaram recordes nacionais da modalidade perante o olhar atónito de quem dizia que os recordes obtidos em águas moçambicanas se ficavam a dever a fugir dos tubarões que as infestavam! E isto para já não falar das suas participações nos Jogos Olímpicos (mas desse facto, melhor nos elucidará o técnico Eurico Perdigão e o nadador Tomané que neles participaram). Eu apenas posso testemunhar o êxito alcançado nos Campeonatos Nacionais de Natação (Metrópole, 1958) por ter sido o responsável pela respectiva preparação física (com pesos e halteres, um verdadeiro escândalo para a época!) e chefe da respectiva embaixada em representação do Conselho Provincial de Educação Física moçambicano.

Mas, para além do Desporto, foi, também, Viriato da Silveira um espírito sempre atento aos aspectos doutrinários da Educação Física e do seu importantes papel no desenvolvimento integral dos jovens escolares. A prová-lo, a longa entrevista que me fez, passado que é meio século e quatro anos depois de eu ter chegado a Lourenço Marques. Pela sua extensão, que ocupou três páginas de jornal, reproduzo acima, apenas, a fotografia da 1ª página (do Diário de Lourenço Marques, 22/02/1961).

Novembro 24, 2011

A NATAÇÃO DE MOÇAMBIQUE NO CONTEXTO DA NATAÇÃO PORTUGUESA EM 1959

Muito agradecido à Dulce Gouveia, que recebeu interessante documento da mão de Eurico Perdigão, contendo informações muito interessantes sobre a natação em Moçambique desde os seus primórdios. O documento data do Natal de 1959 e foi publicado pelo jornal Notícias de Lourenço Marques.

O documento digitalizado em baixo está dividido em três partes e pode ser ampliado premindo na secção que o exmo. Leitor quiser ver ou ler com o rato do seu computador, duas vezes.

Novembro 11, 2011

MENS SANA IN CORPORE SANO – O PROF RUI BAPTISTA, 2011

Fotos amigavelmente extorquidas por mim ao Sr. Prof. Rui Baptista, cuja forma física aos 80 anos de idade (feitos em 19 de Maio) como pode ser atestado em baixo eu já não atinjo aos 51. C’est la vie. São aqueles pesos e halteres todos. Ah, mas ainda consigo carregar os sacos do supermercado para a patroa. Não sei se isso conta.

Mens Sana....

...et Corpore Sano.

Outubro 31, 2011

EVOCAÇÃO DA SOCIEDADE DE ESTUDOS DE MOÇAMBIQUE, PELO PROF. RUI BAPTISTA

Fachada da sede da Sociedade de Estudos de Moçambique, em Lourenço Marques.

(Texto da autoria do Sr. Prof. Rui Baptista)

“A história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico” (Paul Ricoeur, 1913-2005).

Escrevo hoje sobre um livro, intitulado  “Livro de Ouro do Mundo Português – Moçambique” (s/d),  da autoria da jornalista Maria Helena Bramão, que mãos amigas fizeram chegar ao meu conhecimento e em que, a páginas tantas (pp. 22 e 23) , é evocada a Sociedade de Estudos de Moçambique, “ex libris” científico, literário e cultural de Moçambique, anterior  à criação dos respectivos Estudos Gerais Universitários (1962) e depois em futura e frutuosa parceria. A esta Sociedade (julgo que extinta depois de 1975) ligam-me recordações, quase diria umbilicais, por aí ter proferido duas conferências, (“Educação Físíca – Ciência ao Serviço da Saúde Pública” e “Os Pesos e Halteres, a Função Cardiopulmonar e o Doutor Cooper”) , respectivamente, nos anos de 1972 e 1973,  vindo nela  a ser eleito para os cargos de vice-presidente da Secção de Ciências e bibliotecário (1974) e  de presidente da Secção de Ciências e 1.º secretário (1975), tendo, assim,  entrado a Educação Física pela porta principal  nesta veneranda casa “das coisas do espírito”.

Escreveu nesse livro a referida jornalista um elucidativo texto, subtitulado “Sociedade de Estudos de Moçambique – uma instituição cultural pioneira”, que transcrevo abaixo na íntegra com o esclarecimento de se reportar, apenas, à vida da Sociedade de Estudos de Moçambique até meados da década de 60:

“A Sociedade de Estudos de Moçambique foi instituída em 6 de Setembro de 1930, data em que foram superiormente aprovados os seus Estatutos, publicados pela Portaria n.° 1185, daquela data.

Resultou de um movimento inspirado pelo Engenheiro de Minas, António Joaquim de Freitas, que veio a ser o seu Sócio Fundador n.° 1. Na Circular-Convite que dirigiu aos intelectuais de Moçambique, a propor a fundação da Sociedade, mencionava António Joaquim de Freitas, ser um dos objectivos «estabelecer um convívio intelectual necessário às pessoas que vivem pelo cérebro».

Os Estatutos aprovados definiram como objectivos da Sociedade de Estudos, contribuir para o estudo e valorização económica de Moçambique; e contribuir para o desenvolvimento intelectual, moral e físico dos seus habitantes em geral, e, em especial, dos seus associados.

A António Joaquim de Freitas juntaram-se 101 Sócios Fundadores. E depois, desde 1930, muitos outros, que com esforço, dedicação e inteligência têm vindo a realizar com persistência os objectivos da Sociedade.

Foi o primeiro Presidente da Direcção da Sociedade de Estudos o Coronel Eduardo Augusto da Azambuja Martins. Sucederam-lhe o Eng.° Joaquim Jardim Granger (1932-34); o Coronel João José Soares Zilhão (1935 e 1940-41); o Eng.° Mário José Ferreira Mendes (1936-38 e 1946-49); o Comte. José Cardoso (1939); o Eng.° António Joaquim Freitas (1942-45); o Dr. António Esquivei (1950-60); o Contra-Almirante João Moreira Rato (1961-62); e o Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro (1963). O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado.

Foram nomeados Sócios Beneméritos, pelos relevantes serviços prestados à Sociedade de Estudos, o Contra-Almirante Manuel Maria Sarmento Rodrigues, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Câmara Municipal de Lourenço Marques.

A Sociedade de Estudos foi agraciada com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1956), grau de Oficial da Ordem de Instrução Pública (1960), Medalha de Ouro de Serviços Distintos da cidade de Lourenço Marques (1960) e Palma de Ouro da Academia das Ciências de Lisboa (1960).

Dentro da acção desenvolvida desde 1930, a Sociedade de Estudos tem promovido a realização de estudos, cursos, lições, conferências, congressos, exposições e sessões de cinema.

Desde 1931 que se publica o «Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique», que é presentemente trimestral.

Tem editado outras publicações entre as quais se destaca «A Cartografia Antiga da África Central e a Travessia entre Angola e Moçambique, «1500-1860» da autoria do ilustre historiógrafo Comte. Avelino Teixeira da Mota, que a dedicou ao Contra-Almirante Sarmento Rodrigues e a ofereceu à Província de Moçambique. A edição foi custeada por subsídio especial concedido pelo Governo-Geral de Moçambique, tendo-se feito a versão inglesa.

As publicações da Sociedade de Estudos são permutadas com as de numerosas instituições nacionais e estrangeiras em todo o Mundo. Foi assim organizada progressivamente uma Biblioteca de carácter enciclopédico, que conta cerca de 25 000 volumes; e uma biblioteca juvenil, com perto de 1500 volumes, convenientemente escolhidos.

O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado. A Sociedade de Estudos tem-se feito representar em diversos congressos e reuniões de carácter cultural, no país e no estrangeiro. Desde 1934 que participa nos congressos anuais da Associação Sul-Africana para o Progresso da Ciência, tendo colaborado na Organização dos Congressos de 1948 e de 1958, que se realizaram em Lourenço Marques.

Já nos Estatutos aprovados em 1930 se previa a necessidade de se conseguir ‘uma sede suficientemente ampla, cujos meios de trabalho e conforto irá sucessivamente aumentando, por forma a tornar a sua frequência cada vez mais agradável’.

Depois de grandes esforços, foi finalmente decidia a construção do novo Edifício-Sede em 1962, sendo Presidente da Direcção o Contra-Almirante João Moreira Rato, que desenvolveu valiosa acção para tornar viável a realização. Os encargos foram suportados por subsídio, concedidos pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues, pela Fundação Calouste Gulbenkian, por reservas criadas, por quotização suplementar por parte dos sócios, e por um empréstimo a amortizar anualmente.

O edifício, segundo projecto do arquitecto Marcos Guedes e o Eng.° Carlos Pó, foi executado em 1963, sob a orientação da Direcção presidida pelo Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro, tendo sido inaugurado oficialmente em 21 de Abril de 1964, pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues. Registam-se também as numerosas e várias ofertas recebidas de diversas entidades para o apetrechamento do novo Edifício-Sede.

Na sua estrutura actual, a Sociedade de Estudos compreende as seguintes secções: Artes e Humanidades; Ciências Exactas; Ciências Naturais; Ciências Sociais; Agro-Pecuária; Economia e Finanças; Engenharia e Arquitectura; Legislação e Jurisprudência; Medicina, Veterinária e Farmácia; Estudos Brasileiros; Estudos Franceses; Etnologia Africana; Feminina; e de Iniciação Cultural.

No relatório da Direcção, relativo a 1964, figura o seguinte resumo das sessões públicas realizadas naquele ano: 21 conferências; 39 conferências ou lições incluídas em cinco ciclos de conferências e cursos; 6 exposições diversas; 7 sessões de cinema; 18 sessões de cinema para jovens, com filmes educativos e recreativos.

A Sociedade de Estudos de Moçambique muito tem contribuído para o estudo e valorização da Província de Moçambique, assim como para o seu desenvolvimento moral e intelectual”.

Num país agora confinado às suas fronteiras europeias e, por vezes, de costas voltadas para um passado, mais ou menos, recente, entendo, em nome de uma necessária justiça e apego à memória dos factos, que a juventude portuguesa deve ser despertada para as realizações portuguesas além-mar como esta sobre o valioso espólio científico e cultural da Sociedade de Estudos de Moçambique até 25 de Junho de 1975, data da Independência deste jovem e promissor país do continente africano. E numa altura de lamúrias sobre o nosso presente e descrença sobre o nosso futuro como nação secular, tento encontrar réstias de esperança em Eça quando, como agora, o revisito: “Uma nação, vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas – mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas”.

Outubro 23, 2011

“A EDUCAÇÃO FÍSICA AO SERVIÇO DA SAÚDE PÚBLICA”, PELO PROF. RUI BAPTISTA, 1974

Filed under: 1970 anos, DESPORTO MOÇAMBIQUE, Rui Baptista — ABM @ 12:14 am

Estas fotos e recortes foram gentilmente enviadas pelo Sr. Prof. Rui Baptista.

Para ver todas as fotos e recortes em tamanho gigante, por favor prima na imagem que quiser duas vezes com o rato do seu computador.

Texto publicado sobre uma palestra do Prof. Rui Baptista na Sociedade de Estudos de Lourenço Marques. A notícia referencia a publicação em livro, editado pela Sociedade de Estudos de Moçambique, da conferência aqui abordada.

A palestra proferida. Publicação, em 26/09/72, da Parte I (seguida de mais 12 partes) do teor da referida Conferência.

Aspecto da sala na Sociedade de Estudos aquando da palestra proferida pelo Prof. Rui Baptista, mostrando a numerosa assistência que encheu por completo o referido Auditório.

Outra imagem tirada na palestra: Mesa que presidiu à Conferência proferida por Rui Baptista no Auditório da Sociedade de Estudos de Moçambique, intitulada "Educação Física, Ciência ao serviço da Saúde Pública".

Cumprimentos da Direcção da Sociedade de Estudos ao último Governador-Geral de Moçambique antes do 25 de Abril de 1974, o Eng.º Pimentel dos Santos.

Outubro 17, 2011

“DA PREPARAÇÃO FÍSICA DO JOGADOR DE FUTEBOL”, CONFERÊNCIA DO PROF. RUI BAPTISTA, 1967

(Texto da autoria do Sr. Prof. Rui Baptista.)

Em 20 de Setembro passado foi aqui publicado um post meu, intitulado ?Sobre a notável entrevista de Nuno Martins ao Diário de Notícias (11/09/20111)?, em que dei conta, ainda que pela rama, da publicação no “Notícias da Tarde”, de Lourenço Marques, de uma minha conferência: “Da Preparação Física do Jogador de Futebol”.

Por julgar ser de interesse público dar a conhecer que Moçambique, para além de ser um riquíssimo alfobre de atletas que muito dignificaram o desporto nacional, se preocupava, também, em teorizar uma prática desportiva suportada em conferências sobre esta matéria, envio o teor completo dessa conferência que deve ser interpretada à luz de uma época em que sobre os pesos caía o anátema de fazerem mal ao coração e “prender os músculos” tornando o atleta mais lento.

Aliás, em nossos dias, essa perspectiva deixou de ter suporte face à aplicação de exercícios de musculação intensos por parte dos futebolistas mais credenciados a nível mundial e de que Cristiano Ronaldo se fez paradigma.

Recorte 1 de 6. Para ler, aumente o tamanho da imagem premindo nela com o rato do computador duas vezes.

 

Recorte 2 de 6. Para ler, aumente o tamanho da imagem premindo nela com o rato do computador duas vezes.

 

Recorte 3 de 6. Para ler, aumente o tamanho da imagem premindo nela com o rato do computador duas vezes.

 

Recorte 4 de 6. Para ler, aumente o tamanho da imagem premindo nela com o rato do computador duas vezes.

 

Recorte 5 de 6. Para ler, aumente o tamanho da imagem premindo nela com o rato do computador duas vezes.

 

Recorte 6 de 6. Para ler, aumente o tamanho da imagem premindo nela com o rato do computador duas vezes.

Setembro 21, 2011

SOBRE A NOTÁVEL ENTREVISTA DE NUNO MARTINS AO DIÁRIO DE NOTÍCIAS DE LISBOA (11/9/2011)

Nuno Martins na Académica de Coimbra. Antes de ir para Moçambique.

Este texto foi gentilmente enviado e é da autoria do Sr. Prof. Rui Baptista.

A propósito desta entrevista, ao antigo treinador de futebol de Sporting de Lourenço Marques [que pode ser lida premindo AQUI] dei comigo a folhear páginas do meu dossiê, onde guardo os meus artigos e outros textos noticiosos de jornais. Assim, no “Notícias da Manhã” (Lourenço Marques, 15/03/67) foi publicada uma notícia com o seguinte titulo “Colóquio de Treinadores”, e o subtítulo, “Encerrou- se ontem o ciclo de palestras que decorreram em nível elevado”.

Consta da referida notícia, o seguinte texto:

“A sessão abriu com uma palestra gravada proferida em Agosto de 1956 pelo saudoso mestre Cândido de Oliveira aquando da sua visita a Lourenço Marques com a equipa da Académica que infelizmente não pôde ser ouvida na íntegra por deficiência de audição. “Seguiu-se a palestra proferida pelo professor de educação física Rui Baptista, que apresentou um trabalho brilhante. Nos debates que se seguiram intervieram vários dos presentes, sendo de destacar a polémica travada ente o apresentante e o treinador de futebol Nuno Martins, sob certos aspectos de pormenor que resultaram deveras interessantes pelos esclarecimentos de alto índice técnico desenvolvidos pelo professor Rui Baptista.

A encerrar a sessão o presidente da A.P.F.M., Carlos Machado, focou alguns as aspectos das sessões e salientou que as reuniões haviam servido, ainda, para estabelecer um maior nível nas relações humanas”. Relações humanas que me levam a enviar, aqui de Coimbra, um abraço grato a Nuno Martins, um treinador culto, com quem me deu gosto estabelecer a referida polémica, pela troca de conhecimentos (por parte de ambos) de utilidade para a “cientificação” do treinamento dos futebolistas moçambicanos.

Nos dias 15, 16 e 17, desse mesmo mês, era publicado no “Notícias da Tarde”, o texto completo da palestra, repartido por estes três dias devido à sua extensão, com o título “Da Preparação Física do Jogador de Futebol” e o subtítulo “Palestra proferida pelo professor Rui Baptista, no Colóquio de Treinadores de Futebol”. Devido à extensão desses três textos, limito-me a transcrever a respectiva introdução:

“Iniciamos hoje, a publicação do excelente trabalho apresentado ontem, pelo professor Rui Baptista, na sessão de encerramento do Colóquio de Treinadores de Futebol, organizado pela Associação Provincial.

Focando o tema “Preparação Física do Jogador de Futebol”, este brilhante trabalho encerra doutrina que, pelo seu elevado nível, merece ser divulgado na medida em que poderá concorrer para o esclarecimento de problemas de ordem anatómica, biológica, médica, higiénica e genética. Na sua leitura todos poderão colher preciosos ensinamentos especialmente aqueles a quem cabe a elaboração de calendários de jogos, que assim ficam habilitados a poderem compreender o perigo que representa para a saúde dos jogadores a realização de dois, três jogos de competição por semana.

Assim, por julgá-lo de flagrante oportunidade, passamos hoje a publicar este trabalho dum técnico competente e sabedor que, além disso, conhece perfeitamente o meio, tendo, por várias vezes, prestado o seu valioso concurso, quer a Associações, quer a clubes, em diversas modalidades”.

Nesta palestra defendi acaloradamente a integração de exercícios com pesos e halteres na preparação das equipas de futebol, tema considerado tabu naquela época como o era quando ministrei pesos e halteres na preparação física dos nadadores moçambicanos que se deslocaram aos Campeonatos Nacionais de Natação (1958) onde bateram vários recordes nacionais. com grande destaque para a campeoníssima Regina Veloso. Que distância de mentalidades ou alergia aos pesos dos dias em comparação com os dias de hoje em que Cristiano Ronaldo se tornou o paradigma da sua grande importância no desenvolvimento muscular do actual jogador de futebol. Pode ser que um dia destes, escreva um texto a transcrever a defesa que fiz no referido colóquio dos pesos e halteres na preparação física dos futebolistas. Aliás, no campo prático, anos antes, ministrei preparação física com pesos à equipa de futebol do Clube Ferroviário de Moçambique, sendo então treinador Castela, uma velha glória do Belenenses .

Se esta minha modesta contribuição outro interesse não tiver, pelo menos, um terá: noticiar o pioneirismo histórico de Moçambique no campo da preparação física do futebolista com pesos e halteres em território nacional que se estendia do Minho a Timor.

P.S.: A transcrição dos textos jornalísticos foi feita palavra por palavra.

Junho 20, 2011

O PROF RUI BAPTISTA CELEBRA OS 80 ANOS

Filed under: 2010 anos, DESPORTO MOÇAMBIQUE, Rui Baptista — ABM @ 1:23 pm

Foto gentilmente cedida pelo Prof. Rui Baptista.

O Prof. Rui Baptista no dia em que apagou 80 velas - No dia 19 de Maio de 2011. Parabéns atrasadamente. Como vêem, os pesos e os halteres resultam bem...

Junho 15, 2011

A ASSOCIAÇÃO DE NATAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES, 1963

Recorte e texto de apresentação gentilmente enviados pelo Senhor Prof. Rui Baptista.

Recordando velhos tempos, encontrei na minha pasta velhinha de recortes de jornais de Moçambique esta notícia. Envio-a com o natural orgulho de quem dedicou a sua atenção (não tanto como seria desejável pelo seu inegável merecimento) à Natação moçambicana, viveiro de grandes atletas que muito honraram Portugal.

Rui Baptista

Recorte do Diário de Lourenço Marques, 1963. Vejam só os nomes ali referidos. Sobre a trica, não faço ideia do que se tratava.

SOBRE O DESPORTO ESCOLAR, PELO PROF. RUI BAPTISTA

Filed under: 1960 anos, Comentário, DESPORTO MOÇAMBIQUE, OUTROS, Rui Baptista — ABM @ 10:36 pm

Texto e foto gentilmente enviados pelo Senhor Prof. Rui Baptista.

Bem se desunham os actuais responsáveis pelo desporto escolar em tentar prover o seu desenvolvimento. Tarefa ingrata…e sem frutos que se veja quando comparado com a obra levada  efeito pela extinta Mocidade Portuguesa (MP) tentando esconder o seu esqueleto no armário da sua mediocridade. Como é do conhecimento de quem viveu esses tempos, a MP foi alfobre de muitos atletas e até campeões olímpicos, mormente na Vela e na Esgrima. Eram dedicadas ao desporto escolar as tardes de quarta-feira e as manhãs de sábado.

Este texto constitui prova do que se passava em Moçambique. Chamo a atenção da luta que mantive com o Comissariado da MP para que o desporto escolar se não encontrasse divorciado do desporto federado. Consegui-o com a criação do Centro Desportivo Escolar de Lourenço Marques (CDELM) que  só tinha paralelo na então Metrópole, mas a um outro nível: reporto-me ao CDUL (Centro Desportivo Universitário de Lisboa). Neste particular, quer a Escola Industria Mouzinho de Albuquerque, quer a Escola Comercial Dr. Azevedo e Silva, quer ainda o Liceu Salazar (“last but not least”) muito animaram os campeonatos escolares com campeonatos provinciais e nacionais.

Rui Baptista

Artigo publicado na Tribuna, um jornal de Lourenço Marques no dia 24 de Março de 1964.

Junho 3, 2011

RUI BAPTISTA, ANOS 60

Foto genmtilmente enviada pelo Sr. Prof. Rui Baptista e retocada por mim.

O Prof. Rui Baptista leccionou na Escola Industrial em Lourenço Marques e era activo no culturismo e pesos e halteres.

O Prof. Rui Baptista, na Costa do Sol, na companhia de um dos seus seis filhos, Nuno Eduardo.

BREVES SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DO CULTURISMO EM MOÇAMBIQUE, PELO PROF. RUI BAPTISTA

O esplêndido edifício do templo maçónico de Lourenço Marques, na Avenida 24 de Julho, em meados dos anos 1920. Choca ver que, sendo ainda hoje em Portugal a maçonaria assunto de faca e alguidar, em Moçambique era assunto tratado à vista de toda a gente. Poucos anos depois veio o novo regime e o edifício foi convertido na Escola Industrial - e onde o Prof. Rui Baptista ajudou a formar gerações futuras. Suponho na altura que os maçónicos voltaram todos de volta para o undergound.

(texto da autoria do Sr. Prof. Rui Baptista)

Respondendo ao amável convite do meu amigo António Botelho de Melo (Tomané), sempre pronto em noticiar acontecimentos desportivos ocorridos nessa saudosa terra do Índico, eis-me aqui novamente, com o prazer que me dá recordar esses tempos.

Começo  por transcrever pequenos excertos de uma longa entrevista por mim dada ao jornal moçambicano “NOTÍCIAS” (23/09/1963), em  vésperas da realização dos “Campeonatos Abertos de Bench Press”, inseridos nas Comemorações do 39º ano do Clube Ferroviário de Moçambique:

“Natural me parece que o Ginásio apresente uma equipa mais forte. Fundamenta-se esta minha convicção na existência da sua secção de Pesos e Halteres ainda mesmo antes da minha chegada a esta  cidade vai para cima de seis anos. O Ferroviário tem a sua secção a funcionar  há mais ou menos dois anos. Forçosamente, este é  um factor a ter em  consideração. Seja como for, a equipa que treino  vai na disposição de discutir o primeiro lugar, já que o segundo está desde já ao seu alcance!!! O que mais importa é o progresso da modalidade que só será possível e desejável  com competições deste género.

O júri deste concurso  é constituído por um presidente (convidado pelo Ferroviário)  e por dois juízes: um do ginásio e outro  do clube organizador (Ferroviário). Foi convidado para presidir ao júri , o Delegado da Federação Portuguesa de Ginástica em Moçambique , o major Garcia Alvarez,  sendo os juízes por parte  do Ginásio e do Ferroviário, respectivamente, os senhores Carlos Costa e Epifânio Cunha.

Tínhamos ouvido o suficiente para esclarecermos os nossos leitores do que será a realização dos ‘locomotivas’  no campo dos pesos e halteres.

Agradecemos ao professor Rui Baptista a atenção dispensada e ele lá foi  para a sua tarefa de contribuir para que a juventude local se torne mais forte e saudável pela cultura física , praticada em bases pedagógicas certas,  de experiência e saber feitas por quem sabe o que quer e para onde caminha, através de uma acção profissional assente em preparação que se torna indispensável para bem servir e cumprir!”

Finalmente, na noite de 28 de Setembro de 1963, realizou-se, no Ginásio do Clube Ferroviário, repleto de um público entusiasta, a referida competição com a participação de sete atletas do Ginásio de Lourenço Marques, 12 do Clube Ferroviário de Moçambique e um independente. Dou agora notícia dos atletas classificados nos primeiros três lugares das três categorias: leves, médios e pesados. Assim:

CATEGORIA DE LEVES (atletas com o peso corporal até 67,5 quilos )::

1.º Carlos António (Carvalhinho), do Clube Ferroviário de Moçambique (CFM) com o peso corporal de 60 quilos, e o levantamento de 101,925 quilos.

2.º Pedro Laranjeira, do CFM, com o peso corporal de 62,5 quilos, e o levantamento de 86,07 quilos.

3.º Artur Roxo, do CFM, com o peso corporal de 65,1 quilos, e o levantamento de 86,07 quilos.

CATEGORIA DE MÉDIOS ( atletas com o peso corporal até 82,5 quilos):

1.º Rui Baptista, do CFM, com o peso corporal de 75 quilos,  e  o levantamento de 122,31 quilos.

2.º Veloso do Amaral, Ginásio de Lourenço Marques (GLM), com o peso  corporal de 71,9 quilos, e o levantamento de 117,78 quilos.

3.º Manuel Carvalho (Baião), do GLM, com o peso corporal de 79,5 quilos, e o  levantamento de 117,78 quilos.

CATEGORIA DE PESADOS (atletas com o peso corporal acima dos 82,5 quilos):

1.º José Coelho, do CFM; com o peso corporal de 90 quilos, e o levantamento de 134,08 quilos.

2.º Leong Siu Pun, do GLM, com o peso corporal de 83,2 quilos, e o levantamento de 131,37 quilos.

3.º Fernando Morgado, do CFM, com o peso corporal de 85,5, eo levantamento de 80,6 quilos.

Para a classificação por equipa (conforme constava do regulamento do concurso) foram atribuídos 3 pontos ao 1º. classificado de cada uma das categorias, 2 pontos ao 2.º classificado e 1 ponto ao 3.º classificado. Venceu a competição a equipa do Clube Ferroviário de Moçambique com  13 pontos, tendo a equipa do Ginásio de Lourenço Marques obtido 5 pontos.

Julgo de interesse referir que nesse tempo os esteróides, substâncias aceleradoras do crescimento da massa muscular e aumento da força,  não  constavam da preparação “química e criminosa” destes atletas tornando estes resultados  de grande nível nacional (não tenho dados comparativos que  me permitam considerar uns tantos como recordes nacionais). Mais esclareço que todos estes resultados estão certificados por dois  artigos do jornal  “Tribuna” (respectivamente publicados  em 29 de Setembro e 1 de Dezembro de 1963), cujos recortes mantenho em meu poder numa pasta de artigos que o tempo e as traças tentam destruir.

Por último, seria interessante que algum ou alguns dos atletas que participaram neste Campeonato enriquecessem este modesto post com os seus comentários. Seria uma forma de avivar a recordação desses tempos e estabelecer contacto  com atletas que muito dignificaram o culturismo moçambicano. Valeu?

Março 31, 2011

LOURENÇO MARQUES/MAPUTO, OS PESOS E HALTERES E O DOUTOR COOPER, POR RUI BAPTISTA

Filed under: 1970 anos, 2010 anos, Comentário, CULTURISMO, Rui Baptista — ABM @ 10:47 pm

O texto que se segue é da autoria do Sr. Professor Rui Baptista.

Os processos da ciência são característicos da acção humana, porque se movem pela indissolúvel união do facto empírico e do pensamento racional. – J. Bronowski.

Faz parte do meu passado de dezoito anos, na então Lourenço Marques, e do meu grato retorno, ainda que por escassos dias, a Maputo, este trabalho de investigação sobre os Pesos e Halteres (na modalidade de Culturismo) que os tenho como factor muito favorável para a saúde cardiovascular dos seus praticantes se livre de substâncias anabolizantes que anulam por completo esse efeito, contribuindo até para um rol de doenças que arruínam não só o coração como outros órgãos vitais conduzindo-os, por vezes, à sua própria falência.

Vivia-se, então, uma época em que era atribuída à sua prática, pela “vox populi”, e mesmo pela maioria de professores de Educação Física e médicos, diversos mitos sobre os seus malefícios de que destaco três: 1. Fazer mal ao coração; 2. Prender os músculos; 3. Prejudicar o crescimento do esqueleto dos jovens.

O doutor Kennet Cooper fez-se advogado dos malefícios dos Pesos e Halteres para a saúde cardíaca no seu livro “Capacidade Aeróbica” (1972), com a autoridade que lhe advinha da sua profissão de médico e investigador com tamanho interesse pela prática desportiva que na respectiva licenciatura defendeu tese no campo da fisiologia desportiva, entrando, anos depois, para o serviço da Força Aérea onde passou a ter a responsabilidade pelo exigente treino físico dos astronautas norte-americanos. Assim, escreveu ele: “Os levantamentos de peso não aumentam o fluxo da corrente sanguíneo”.

Ou seja, Cooper tornou-se o representante de um sólido axioma pelo arsenal científico de investigação que envolveu um número inicial muito representativo de 5.000 “cobaias”, militares da Força Aérea. O previsível entusiasmo que o seu livro iria despertar em todo o mundo levou um senador norte-americano a considerá-lo “como uma valiosa contribuição para uma América mais sadia”. E o panegírico do senador não se ficou por aqui: “Tenho a certeza de que quando o livro for um ‘best-seller’ (e quanto a isso não tenho a menor dúvida) irá contribuir mais para a saúde e longevidade dos americanos do que qualquer outra descoberta ou realização do ano no campo da Medicina”. Verdade seja dita: a venda deste livro e sua divulgação excedeu largamente as expectativas porque lido, quase como uma bíblia para a aquisição de uma boa forma física, por um incalculável número de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do globo.

Foi, portanto, neste clima de polémica de David contra Golias, que tive o “arrojo”, e ao que sei em acção pioneira, de proferir uma conferência, em 2 de Julho de 1973, na “Sociedade de Estudos de Moçambique”, agremiação científica e literária, Palmas de Ouro da Academia de Ciências de Lisboa, intitulada “Os pesos e halteres e a função cardiopulmonar segundo o teste de Cooper”. Teve esta conferência uma crítica bastante favorável por parte da imprensa moçambicana.

Ampliei esta conferência com um outro estudo sobre os efeitos dos Pesos e Halteres nos valores da tensão arterial dos respectivos praticantes, tendo procedido às respectivas medições o Drs. Jorge Pessoa Monteiro, assistente do Curso de Medicina da Universidade de Lourenço Marques, e o recém-licenciado em Medicina Raul Silveira, atleta de competição de atletismo. De posse destes estudos, mês e meio depois, publiquei um livro com 97 páginas intitulado “Os pesos e halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper.

Em 1997, apresentei, integrada no “V Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa” (Maputo, 24-28 de Março), uma Comunicação intitulada “Modificações tensionais provocadas pelo levantamento de pesos”.

A importância deste Congresso foi posta em destaque, através da seguinte mensagem: “A realização deste já prestigiado evento em Moçambique constitui um motivo de honra, orgulho e alegria para nós Moçambicano, para a Universidade Pedagógica e muito particularmente para o corpo docente e discente da Faculdade de Ciências de Educação Física e Desporto. Honra por termos sido convidados a fazê-lo, orgulho por estarmos a cumprir o desafio e alegria por recebermos nesta nossa modesta e ainda muito jovem Faculdade colegas dos mais variados pontos do mundo que comunicam em Língua Portuguesa”.

Finalmente, em 2002, por saber do grande prestígio que desfrutava no mundo da fisiologia do exercício físico, acrescido do facto de ser um dedicado praticante de pesos e halteres, enviei o meu livro “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper” ao Doutor José Maria Santarem, doutor em Medicina pela Universidade de S. Paulo (Brasil), senhor de um invejável e longo currículo de que enuncio, apenas: 1) Coordenação de Cursos de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo (CECAFI) em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento; 2) Coordenador do Ambulatório de Atividade Física da Disciplina de Geriatria da referida Faculdade,; 3) Autor do capítulo “Treinamento de Força e Potência” da obra “O Exercício – Preparação Fisiológica, Avaliação Médica, Aspectos Especiais e Preventivos”. Mereceu o livro uma crítica lisonjeira, cujo “fac símile” é apresentado numa das fotografias aqui publicadas. Desta forma, julgo ter ficado demonstrado que em Moçambique os Pesos e Halteres mereceram estudos pioneiros de investigação numa época em que o nome de Kenneth Cooper desacreditava fortemente a sua prática.

Tal facto, por si só, justifica a extensão deste meu texto em relato de uma acção em defesa de uma prática desportiva que teve atletas valorosos em Moçambique, terra da minha saudade da sua gente e de uma vida profissional aí decorrida durante aproximadamente duas décadas.

Nota final: Esclarece-se que os atletas testados não praticavam qualquer forma de corrida associada à prática dos pesos e halteres por existir o mito de que a corrida era desfavorável ao crescimento muscular. Este teste realizado nos dias de hoje teria como resultado não se saber até que ponto a corrida poderia influenciar os respectivos resultados.

As fotografias aqui publicadas e legendadas mais não pretendem do que documentar o respectivo texto:

Apresentação do palestrante.

 

Notícias, 3 de Julho de 1973.

Diário, 3 de Julho de 1973.

Vista parcial da assistência à conferência na Sociedade de Estudos de Lourenço Marques.

Diário, 23 de Agosto de 1973.

A Tribuna de 8 de Setembro de 1973.

Pôr do sol no Hotel Cardoso em Maputo, durante o Congresso. À direita do Prof. Rui Baptista o Dr. Joel Matias Libombo, Vice-Ministro da Cultura, Juventude e Desportos de Moçambique.

"Abstract" da comunicação do Prof. Rui Baptista no V Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa (Maputo, 26/03/97).

Comentário do Porf. José Maria Santarém ao livro "Os Pesos e Halteres, a função cardiopulomnar e o Doutor Cooper".

Fevereiro 15, 2011

SOBRE O CULTURISMO

Culturismo em Lourenço Marques. Da esquerda: Adolfo Figueiredo, (?), Manuel Carvalho (Baião), (?) e (?). Ao fundo à direita, o Clube Naval e a Ponta Vermelha.

Este texto é da autoria do Prof. Rui Baptista.

Reporta-se esta fotografia a dois praticantes de culturismo que foram meus alunos no Clube Ferroviário de Moçambique: o primeiro a contar da esquerda, Adolfo Figueiredo, também meu aluno da Escola Industrial, e Manuel Carvalho (Baião) o terceiro.

Foi-me ela enviada da Austrália pelo Baião, que aí vive desde da Independência de Moçambique, como prova muito grata para mim, de que a distância de milhares e milhares de quilómetros não enfraquece (bem pelo contrário!) uma amizade que atravessa continentes sem se perder na poeira do tempo de 57 aos dias de hoje.

Vivia-se então uma época em que se não advinhava sequer que Arnold Schwarzennegger, nascido na Áustria (30/06/1947), se viria a sagrar sete vezes “Mr. Olympia”, desempenhar papéis de acção em filmes de Hollyood e ser nomeado 36.º governador do Estado da Califórnia. Eram outros tempos. Tempos em que escrevi no meu livro esgotado(citado aqui em outras ocasiões) “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o Doutor Cooper”, Lourenço Marques, 1973, pp. 16-17, o texto que reproduzo abaixo:

Instituto Nacional de Educação Física, 1955.

Um finalista propõe-se apresentar, como dissertação final de formatura, um tema escaldante, explosivo mesmo: ‘Pesos e halteres, alguns aspectos mecânicos e anatomo-fisiológicos da modalidade’.

Expõe, com o entusiasmo dos seus vinte e poucos anos, a sua intenção ao então director da Escola, Doutor Mário Gonçalves Viana, que o escuta atenta e compreensivamente, mas que lhe pergunta de chofre: ’Pretende o Curso para o exercer como meio de sustento futuro ou tem outra actividade profissional em mente?’

A resposta foi afirmativa para a primeira destas alternativas, o que conduz ao conselho amigo: ‘Se assim é, se pretende, na verdade, obter a Carta de Curso, desista da sua intenção, porquanto os obstáculos e as dificuldades que vai enfrentar na sua defesa são quase impossíveis de superar’ [referia-se ele aos professores de uma escola superior e tradicional para quem os pesos e halteres representavam uma espécie de afronta aos conhecimentos científicos à época].

Assim, viu-se ele coagido a desistir.

Esse finalista era eu, que confesso a derrota sofrida pelo meu espírito polémico, embora prometendo a mim próprio prosseguir agora, como em outras ocasiões, na luta que sei não me trazer glória e muito menos aplausos. Unicamente a satisfação de um dever cumprido na obrigação de explicar por que pratico pesos e halteres, desde os dois últimos anos do liceu [actuais 11.º e 12.º anos do ensino secundário] e, o que é mais importante, me responsabilizo pela orientação de inúmeros praticantes desta modalidade (há doze, catorze anos? Sei lá!) nesta parcela do Índico.

Todavia, poucas obrigações terão tido para mim a imperiosidade desta e o prazer que me dá o seu público cumprimento numa instituição com a tradição científica da Sociedade de Estudos de Moçambique.

E porque este blogue é um repositório da história do Desporto em Moçambique, recordo aqui o nome de um famoso praticante de culturismo, falecido anos atrás, que conheci aquando da minha chegada a Lourenço Marques, de apelido Nascimento, mas mais conhecido por “Barbell” (nome dado às barras de aço em que se colocam os discos de peso). Esta uma singela homenagem que muito viria a ganhar se, porventura, houver quem dele possua uma fotografia e a envie para o Delagoa Bay.

Fevereiro 13, 2011

PRATA DIAS, TITO DE MORAIS, ROGÉRIO DE CARVALHO E JOÃO BOAVENTURA

O texto que segue é da autoria do Prof. Rui Baptista. A imagem fui eu que meti.

A propósito de um comentário de Augusto Martins [feito neste blogue]:

Começo por agradecer ao seu autor o facto de no seu texto referir mais uma faceta da actividade desportiva do meu Colega Prata Dias, a exemplo de um meu outro grande Amigo, também ele praticante de voos de trapézio, infelizmente também já falecido,o Dr. Augusto Tito de Morais, médico que me mereceu, recentemente, um outro post meu, publicado [recentemente] neste blogue, pelo reconhecimento da sua valiosa acção na prática dos Pesos e Halteres e como divulgador de conceitos científicos a ela atinentes.

Recordo-me das conferências que, a propósito, ambos realizámos na Associação dos Naturais de Moçambique e dos debates acalorados que mantivemos na sequência de uma conferência deste médico e professor universitário sobre a forma em obter um melhor rendimento biomecânico, sob o ponto de vista respiratório, durante a execução do “press”, levantamento de uma barra de pesos acima da cabeça com extensão dos membros superiores.

Chegámos a um ponto de impasse tal que ele, a páginas tantas, se virou para mim, dizendo publicamente: “Desafio-te a fazeres uma conferência sobre esta polémica temática”. Dito e feito. Passados alguns dias, apresentei-me para a fazer perante o mesmo público numeroso com a presença de um outro comum amigo, o Engenheiro Rogério de Carvalho. Durante cerca de uma hora explanei considerações de natureza biomecânica e fisiológica que acabaram por pôr ponto final à discussão.

Rogério de Carvalho, inicialmente, apoiante da tese de Tito de Morais, anos mais tarde, viria a escrever, com inegável brilho, o posfácio do meu livro “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper” . A páginas tantas (p. 84), escreve ele, em citação ipsis verbis:

“Se as conferências sobre pesos e halteres do Dr. Rui Baptista tiveram o seu mérito assegurado, pela autoridade do conferencista, a publicação deste livro, nem por isso, deixava de se impor como primeiro contragolpe em defesa da caluniada ginástica com pesos, como concreto e valioso passo para retirar a modalidade do campo sempre impreciso do empirismo e como meio de libertar os cultores mais timoratos da preocupação subconsciente pelo futuro dos respectivos e preciosos sistemas cardiovasculares”.

Costuma dizer-se que as palavras são como as cerejas. Quanto a mim, o mesmo sucede no encadeamento dos nossos pensamentos: começando ambos por falar de Prata Dias voou o meu pensamento para outros dois grandes amigos: Tito de Morais (por mim evocado, dias atrás num post) e Rogério de Carvalho. Seria, por outro lado, prova imperdoável de esquecimento não recordar aqui o nome de um outro praticante do Ginásio Clube Português, (Tito de Morais foi trapezista do Lisboa Ginásio de Portugal) de voos de trapézio, o meu Compadre, Amigo, e Colega João Boaventura, antigo professor do Liceu António Enes, de Lourenço Marques, com quem mantenho profícua conversa diária, para o cérebro não “enferrujar”.

Rui Baptista

Fevereiro 11, 2011

MANUEL ALEXANDRE BAPTISTA PRATA DIAS (WANGONI): IN MEMORIAM

O texto é da autoria do Prof. Rui Baptista.

O Prof. Prata Dias em 1962, no estádio coberto do Malhangalene, a entregar um prémio a uma das equipas que participaram num festival da Mocidade Portuguesa. Esta foto aparece mais à frente na totalidade, e foi enviada muito generosamente por Eduardo e Cristina Horta. Muito grato.

O recente post aqui publicado, “António Trindade a jogar ping pong, anos 60” (29/01)2011), sugere-me a oportunidade e a justiça deste pequeno texto.

Lembro-me bem de António Trindade, com quem convivi mais de perto numa altura de que uma das suas filhas foi por mim acompanhada num tratamento de ginástica correctiva ou de reabilitação como hoje se chama. Os seus despiques de ténis com Prata Dias eram famosos em Lourenço Marques chamando aos courts do Cube de Ténis de Lourenço Marques um público entusiasta que torcia ora por um ora por outro. Eram dois estilos de jogo diferentes de dois belíssimos jogadores que alternavam entre si o título de Campeão de Moçambique. Julgo até que ambos chegaram a ser campeões de ténis de Portugal, um Portugal que ia do Minho a Timor espalhando o seu nome e a sua gesta pelos cantos do mundo.

E já que vem ao caso o nome do meu Colega Prata Dias, membro de uma família ilustre e antiga da então Lourenço Marques, ao que me disseram falecido anos atrás no Brasil para onde se dirigiu depois da Independência, é justo recordar que se tratava de um atleta completo, tendo vencido vários Campeonatos Universitários, em outras modalidades desportivas (atletismo e natação) em representação do antigo INEF, hoje Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.

Este um singelo preito (em que me atrevo associar o The Delagoa Bay Company) a um Colega e Amigo dele bem merecedor. Melhor, merecedor de uma Homenagem que faça esquecer o hábito ancestral e bem português de depreciar os vivos e esquecer os mortos que da lei da morte se foram libertando, como escreveu o Vate.

A história também é feita de testemunhos de quem foi seu contemporâneo. Seja ela feita pelo entusiasmo e obra digna de louvor de António Botelho de Melo que a espalha pela grande família moçambicana e urbi et orbi em milésimos de segundo com a ajuda de uma memória, por vezes, enfraquecida de quem presta os seus testemunhos orais, escritos ou por imagens fotográficas. Não é bem verdade, ao que se diz, que recordar é viver outra vez?

(fim)


Notas adicionais de ABM à crónica do Prof. Rui Baptista

1. O sítio da Federação Portuguesa de Ténis na internet indica que Prata Dias foi campeão nacional de ténis uma vez.

2. O texto abaixo revela o que sucedeu com Prata Dias e a sua família. Como corolário, encontrei referências laudatórias do Prof. Prata dias pelos hoje treinadores de ténis brasileiros Miguel Kelbert (“um dos tenistas e professores mais conhecidos do Estado, Miguel Kelbert começou a jogar ainda cedo no Grêmio Náutico União, sob a orientação do professor Prata Dias. Atualmente Miguel integra o team de professores da Academia TopSpin, na Associação Hebraica, além de disputar torneios pelo Rio Grande do Sul, colocando “medo” nos adversários mais jovens”) e Luiz Siqueira (“Tive a oportunidade de aprender, fazer cursos e clínicas com grandes nomes, como Kirmayr, treinador da Gabriela Sabatini, e também com o grande Prata Dias, dono de uma técnica inesquecível”)

3. O brasileiro Jornal da Orla, edição de 31 de Outubro de 2010, publicou o seguinte texto, assinado pelo colunista Sr. José Carlos Silvares, que creio ser relevante e se reproduz em seguida, com vénia:

Título: Campeões do Além-Mar

Ainda havia muito medo nos olhos de todos. O mais velho, um professor campeão de tênis, ao lado da mulher, da filha, do genro e das três netas, apesar de tudo, conseguia falar de esperança. Eles fizeram parte talvez da primeira leva de refugiados de Moçambique a chegar ao Brasil naquela época de pânico que tomava conta da colônia portuguesa no continente africano.

Era janeiro de 1975 quando o cargueiro italiano “Calagaribaldi” finalmente atracou no Porto de Santos. A passagem de ano em alto-mar foi um divisor de águas para a família Prata Dias. Todos se abraçaram a bordo e agradeceram a Deus por estarem ali sãos e salvos, embora no rumo do desconhecido.

Encontrei um professor Prata Dias ainda em pânico. Em seu primeiro contato com um brasileiro, na porta do camarote, ele começou a contar a aventura que foi conseguir as vagas no navio, após uma espera de 48 dias até a chegada do cargueiro italiano.

“Posso dizer que Moçambique foi totalmente transformada em campo de batalha, e a indecisão é o ponto marcante na vida de inúmeras famílias, que não sabem o que fazer. Algumas, com posses, foram para países distantes; outras, com menos recursos, invadem a fronteira com a África do Sul; e há os que simplesmente esperam, para ver o que vai acontecer nos próximos dias”. Foram suas primeiras palavras a um jornalista cheio de perguntas a fazer.

O professor completava: “Há muito pânico e receio, e a incerteza do que está para acontecer tem levado famílias ao desespero, fugindo e deixando parentes, terras e até roupas”. Das 300 mil pessoas que moravam na região de Lourenço Marques, capital e principal porto do país, cerca de 130 mil já tinham fugido, muitas a pé.

Moçambique vivia tempos de guerra civil, de ódio racial, na luta por sua independência de Portugal, liderada pela Frente de Libertação de Moçambique, a Frelimo. Lisboa tinha vivido a Revolução dos Cravos em abril de 1974 que depôs o regime ditatorial e as colônias buscavam a independência a qualquer custo. A família Prata Dias já estava no Brasil quando isso aconteceu, em junho de 1975.

Com medo de ser assassinados, os portugueses de Moçambique tomaram rumos diferentes. O professor Manuel Alexandre Baptista Prata Dias, então com 53 anos, fez o que achou que deveria fazer: lutou por passagens em um navio qualquer, para qualquer lugar. Juntou seus familiares, encaixotou os 312 troféus e centenas de medalhas que ganhou durante 23 anos em torneios de tênis, alguns internacionais, catalogou seus documentos como professor de Educação Física com especialidade em tênis, com diploma dos Liceus do Ultramar, e às vésperas do Natal de 1974 conseguiu embarcar.

A bordo ele soube que o navio iria para o Porto de Santos. No mar, lendo uma revista, encantou-se com imagens de Porto Alegre e decidiu: adotaria a cidade para reiniciar a vida. Tudo o que tinha na bagagem eram planos. Um deles, de lecionar numa universidade e de voltar a dar aulas de tênis.

Senti muita determinação do professor com relação ao seu futuro no Brasil, até então totalmente desconhecido e incerto, e procurei transmitir essa firmeza de meta como um exemplo a ser seguido, na reportagem publicada na época. Mais incerto e desconhecido, para ele e sua família, era o futuro em Moçambique. “Queremos uma vida melhor”, disse, ao lado da mulher Maria Teresa, da filha Maria, do genro José Armando Ribeiro Fernandes e das netas Lycia, Ariana e Ágata.

O professor tinha uma curiosidade em seu currículo. Ele nasceu a bordo de um navio alemão, o “Wangoni”, numa viagem dos pais entre dois portos sul-africanos, e sua certidão de nascimento trazia como sendo natural do navio. Quando completou 18 anos, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, foi chamado pela Alemanha para integrar o quadro do Exército, já que havia nascido no navio, considerado território alemão. Ele não foi e no ano seguinte resolveu mudar a certidão como nascido em Moçambique.

O "Wangoni", a bordo do qual Manuel Prata Dias nasceu em 1922, sob bandeira alemã. Em 1940, os alemães tentaram recrutá-lo para a guerra. Ele mudou a certidão de nascimento para dizer que nascera no território então português de Moçambique. E ficou em Lourenço Marques.

O professor lembrou esse fato para dizer que se tivesse ido para a Alemanha teria mudado o seu destino. Acabaria mudando muitos anos depois por força de outra guerra, em seu país.

Nunca mais ouvi falar da família. Soube muitos anos depois que o seu sonho de lecionar tênis foi realizado até à morte. Um dos clubes em que foi técnico foi o Grêmio Náutico União, de Porto Alegre. Alguns de seus alunos, como havia acontecido no passado, agora no Brasil, tornaram-se campeões de tênis. Um deles, Miguel Kelbert, sempre faz questão de referir-se a ele como o seu primeiro e saudoso professor.

Escrevi depois muitas outras histórias de refugiados que chegaram ao Porto de Santos, ao acaso ou não, fugindo de Angola e de outros países, fugindo do medo, fugindo do futuro incerto, em tentativas de recomeçar a vida em condições mais favoráveis. A história dos Prata Dias, no entanto, por algum motivo, sempre me vem à memória.

São histórias que lembram a dos milhares de imigrantes que, como meus antepassados e os antepassados de muitos leitores, vieram para o Brasil e aqui se firmaram no trabalho nas cidades, em fábricas, ou no campo, plantando café e colhendo seus descendentes. São cidadãos de além-mar, campeões de além-mar, trazidos por navios ou aviões, a reconfirmar que, quando se quer, tudo é possível e tudo é vitória.

(fim)

Fevereiro 10, 2011

UMA NOTA DO PROF RUI BAPTISTA SOBRE AUGUSTO TITO DE MORAIS

Filed under: 2010 anos, Comentário, OUTROS, Rui Baptista — ABM @ 12:35 pm

Augusto Tito de Morais

Creio que, algo desmerecidamente, a pessoa e obra do Dr. Augusto Tito de Morais “sofre” alguma desatenção por contraste com a atenção dada ao seu irmão Manuel, este com um distinto percurso profissional mas principalmente político, que inclusive foi alvo de exéquias no centenário do seu nascimento.

E foi a propósito dessas exéquias que o Sr. Professor Rui Baptista escreveu a crónica que segue, a qual foi primeiro publicada no excelente blogue  De Rerum Natura.

PESOS E HALTERES: EM MEMÓRIA DE AUGUSTO TITO DE MORAIS

Deparei-me hoje com um blogue de homenagem a Manuel Tito de Morais, um dos fundadores do Partido Socialista, no 100º aniversário do seu nascimento. Nele, Pedro Tito de Morais recorda, entre outros familiares, o seu tio Augusto Tito de Morais, também já falecido, professor catedrático do Instituto de Medicina Tropical, médico da Organização Mundial de Saúde que, nessa qualidade, viajou pelas sete partidas do mundo.

A páginas tantas, escreve que ele “aos 20/30 anos foi trapezista e tinha muito orgulho nisso”. Pela minha parte, julgo de interesse acrescentar ao seu currículo desportivo a sua qualidade de dedicado praticante de pesos e halteres, como escrevi na dedicatória de um dos meus livros, publicado em 1972, Os pesos e halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper.

Reza essa dedicatória:

Dedico este livro a Augusto Tito de Morais, grande entusiasta dos pesos e halteres, companheiro das lides desportivas, médico virado para os problemas da investigação, no Instituto de Investigação Médica de Moçambique, e, sobretudo, querido Amigo.

Um objectivo comum nos unia: a divulgação da modalidade, como meio seguro em preservar a saúde, e a sua intransigente defesa. Daí, o despontar de uma indefectível amizade.

Ao serviço dos ‘ferros’ pusemos os nossos conhecimentos sobre o corpo humano, transmitindo-os aos outros, sem jactância, por conferências proferidas na Associação dos Naturais de Moçambique, e nos debates que se lhes seguiam, sempre calorosos, norteados no amor à Cultura Física e na procura de um mesmo fim, através de proposições diferenciadas ou caminhos divergentes, qual deles o mais apressado na desmistificação dos sobranceiros contraditores dos pesos e halteres. [De entre eles, o supracitado doutor Kenneth Cooper, autor do famoso Teste de Cooper para avaliação da capacidade aeróbica].

Abandonou, há anos, o Dr. Tito de Morais, o campo de batalha moçambicano, no alcance de novos horizontes: médico da Organização Mundial de Saúde, dedica-se, nos dias de hoje, ao seu semelhante nos mais recônditos pontos globo. Resto eu, que aqui de Moçambique, lhe envio “sem saber se o recebe ou não” o amplexo forte do camarada de armas que prossegue a luta na lembrança de antigas escaramuças que estão longe de ter conduzido à vitória final.

A verdade tem o seu preço, tanto mais elevado quanto menor o número daqueles que a procuram.

Na altura, enviei-lhe o meu livro. Encontrava-se então Augusto Tito de Morais em missão no Cambodja. Passados meses, tive a confirmação da sua recepção por carta do destinatário.

Anos mais tarde (2001), enviei também o livro ao médico fisiatra Prof. Dr. José Maria Santarém, fundador do Centro de Estudos em Ciências da Actividade Física e de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Brasil. Passados pouco tempo recebi o seguinte mail:

“Com muita alegria recebi o seu livro e a sua carta. Nossos ideais são comuns, e as nossas dificuldades históricas também. Felizmente hoje as evidências nos apoiam e somos ouvidos, mas é sempre emocionante lembrar os tempos em que éramos quase ignorados. Gostei muito do seu texto que, naturalmente, deve ser lido com a lembrança da situação e do conhecimento de então. Meu desejo é que um dia nos possamos encontrar e rir bastante com as dificuldades do passado. Um fraterno abraço. Santarem”.

Julgo que Augusto Tito de Morais teria gostado de saber que a nossa constante e entusiástica campanha em defesa dos vilipendiados “ferros” não foi em vão.

Janeiro 17, 2011

O PROFESSOR RUI BAPTISTA EM 2011

Filed under: 2010 anos, DESPORTO MOÇAMBIQUE, Rui Baptista — ABM @ 3:13 am

Foto rapinada ao Prof. Rui Baptista, lenda da Escola Industrial de LM e em Coimbra, e que este ano completou 79 anos.

O Prof. Rui Baptista mantém a forma de sempre.

Janeiro 8, 2011

MENS SANA IN CORPORE SANO

David, por Michelangelo.

Este texto é da autoria do Prof. Rui Baptista, que marca presença habitual no blogue De Rerum Natura.

Inicialmente, a um post de António Botelho de Melo, intitulado “Clube Académico de Coimbra”, 1975 ( 7.Fev.2010), foi minha intenção endereçar este pequeno texto sob a forma de comentário. Pedindo ao seu autor que reproduza novamente aqui a fotografia que acompanhou o respectivo post [vide abaixo], bem ou mal, entendi merecerem estas minhas mal alinhavadas linhas um destaque maior que um simples comentário.

O leitor interessado em factos do desporto nacional (tenham eles ocorridos na Metrópole ou no antigo Ultramar Português) certamente acolherá favoravelmente esta minha decisão, a decisão de um moçambicano do coração, natural da Luanda, filho de pais de um Portugal europeu, que veio viver e refazer a sua actividade profissional em acolhedoras margens do Mondego que mitigaram, apenas, as saudades da belíssima Cidade das Acácias (Lourenço Marques) em terras do Índico.

Vem isto a propósito de, há meses atrás, ter assistido a uma interessante palestra da Professora Eugénia Cunha, docente da Universidade de Coimbra. Mal sabia eu estar em presença, para além de uma prestigiada académica, de uma destacada nadadora coimbrã. Prova evidente do casamento perfeito entre a matéria que se diz pensante e o resto do corpo.

Aliás, Ernest Krestchemer, médico psiquiatra e doutor “honoris causa” em Filosofia, o reforça: “O homem pensa com o corpo todo”. Por seu lado, contrariando o dualismo cartesiano, “res cogitans”/ “res extensa”, Jean-François Lyotard, filósofo da nossa contemporaneidade, não hesita em criticar todos aqueles que defendem que ” toda a energia pertence ao pensamento que diz o que diz, que quer o que quer; a matéria é o fracasso do pensamento, a sua massa inerte, a estupidez”. Sem me que querer alongar, respaldo-me, por último, numa figura da vida cultural portuguesa do século XX, Almada-Negreiros: “É preciso criar a adoração dos músculos”.

A equipa de natação do Clube Académico de Coimbra em 1975. Eugénia Cunha está sentada à esquerda.

Janeiro 6, 2011

NOTA DO PROF. RUI BAPTISTA: SOBRE O ESPÓLIO DA DELAGOA BAY COMPANY

Do espólio riquíssimo deste valioso blogue, em que as memórias desportivas moçambicanas (e não só!) se sucedem a um ritmo vertiginoso, recolho, embora tardiamente, o confesso, deste texto as fotografias de Margaride Fernandes (treinador da selecção de Moçambique que se deslocou à metrópole de então para disputar com raro brilhantismo os campeonatos nacionais de natação), João Passeti (treinador de natação em Quelimane), dos nadadores Graça Paiva, Carlos Freitas e João Godinho.

Desta plêiade de figuras que participaram nesses memoráveis campeonatos (em que tive a honra de ser o preparador físico e chefe da embaixada desportiva em representação do Conselho Provincial de Educação Física de Moçambique), aqui fotografadas, não constam outros nomes como, por exemplo, o do então treinador do Sporting de LM, Matos, os da grande Regina Veloso, Elza Ferreira, Fernanda Campos, Bernardete Brito, Carlos Ótão, Humberto Rodrigues, Pidigi, Guia. Penitencio-me por algum esquecimento, desde já o declaro, involuntário…

De Carlos Freitas recebi anos atrás um telefonema. De então para cá perdi-lhe o rasto, o que não invalida que lhe envie os votos de um Bom Ano que englobam todas essas figuras, ainda vivas, que participaram pela primeira vez nos Campeonatos Nacionais de Natação tornando-se os primeiros obreiros de um saga desportiva continuada por nadadores moçambicanos como, por exemplo, Dulce Gouveia e António Botelho de Melo, ambos, por coincidência, filhos de amigos meus: o engenheiro Tomás Gouveia, meu colega na docência da saudosa Escola Industrial de LM, e o Tenente Botelho de Melo, meu companheiro em lides jornalísticas de puro amadorismo.

Dezembro 21, 2010

ALMOÇO DA ESCOLA INDUSTRIAL MOUZINHO DE ALBUQUERQUE HOMENAGEIA O PROF. RUI BAPTISTA

Um pequeno grupo de antigos alunos da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, em Lourenço Marques, deslocou-se recentemente do Norte e Sul do país até Coimbra, onde surpreenderam o Prof. Rui Baptista com um convite impromptu para um almoço.

O copioso repasto teve lugar no restaurante Rui dos Leitões, em Coimbra, entre momentos de grande alegria e amizade.

As fotos tiradas na ocasião:

Da esquerda para a direita: Godinho Antunes (e a sua farta bigodaça!), de Coimbra, o Professor Rui Baptista, Carlos António, de Lisboa, e Duarte Silva, que veio de Faro.

Da esquerda para a direita: Duarte Silva, o Prof. Rui Baptista, Adolfo Figueiredo e Carlos da Conceição.

Godinho Antunes jogou futebol na equipa principal do Clube 1º de Maio de Lourenço Marques.

Carlos António foi campeão de Pesos e Halteres de Lourenço Marques, na categoria de leves, em representação do Clube Ferroviário de Moçambique.

O próprio Prof. Rui Baptista foi campeão de médios nessa mesma competição.

Adolfo Figueiredo, para além de ex-aluno na Escola Industrial, foi também aluno do Prof. Rui Baptista na Classe de Pesos e Halteres do Ferroviário.

Quanto a Duarte Silva, do seu passado desportivo, apenas se retém o de ser um bom garfo, que deve a sua “forma física” às aulas de Educação Física que o Prof. Baptista lhe deu….há quarenta anos.

No final, aos seus organizadores, o Prof. Baptista agradeceu com um abraço de muita amizade a surpresa do almoço e a sua grata presença na cidade à beira do Mondego.

RUI BAPTISTA E A GINÁSTICA PELA RÁDIO NO RÁDIO CLUBE DE MOÇAMBIQUE

Filed under: 1960 anos, DESPORTO MOÇAMBIQUE, Rui Baptista — ABM @ 3:00 am

 

 

 

 

Recorte de A Tribuna de 28 de Agosto de 1963.

Peça de humor, publicada no jornal A Tribuna de Lourenço Marques, na sua edição do dia 23 de Agosto de 1963. Parodia um programa de ginástica radiofónica do Rádio Clube de Moçambique que foi para o ar durante vários meses naquele ano. As lições eram ministradas pelo Professor Rui Baptista, e eram acompanhadas ao piano por um médico seu amigo, investigador no Instituto de Investigação Médica de Moçambique, o Dr. Rui Nunes de Almeida.

Depois da Independência, o Dr. Rui Nunes de Almeida foi trabalhar para o Brasil.  Não sei dele, mas se alguém souber que escreva uma linha para aqui.

O Sr. Professor Rui Baptista, inesquecível por muitos que frequentaram os meios desportivos da cidade e estudaram no Instituto Industrial, está em Coimbra e recomenda-se, bem como a sua família.

Curiosamente, após a Independência, a Rádio Moçambique, que sucedeu ao Rádio Clube, continuou a ter este tipo de programa de ginástica matinal. Aliás, a primeira vez que eu consegui apanhar uma emissão radiofónica da Rádio Moçambique em onda curta em Providence, nos Estados Unidos, onde então vivia, cerca de 1983, deviam ser umas cinco e tal da manhã em Maputo e estava a ouvir-se….uma senhora muito simpática a dar uma aula de ginástica.

Dezembro 1, 2010

A ESCOLA INDUSTRIAL MOUZINHO DE ALBUQUERQUE, por RUI BAPTISTA

Em seguida se reproduz um texto da autoria do Senhor Professor Rui Baptista, que leccionou naquele estabelecimento de ensino a gerações de estudantes.

A fachada da Escola Industrial em Lourenço Marques. Anteriormente, foi um templo maçónico. Hoje creio que é um instituto de ensino.

por Rui Baptista

Transcrevo um post por mim publicado, no passado em 27/10/2010, no blogue “De Rerum Natura” que mais não é do que uma singela homenagem a alunos da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques, dela amplamente credores pelo reconhecimento público de uma boa formação escolar – que lhes deu acesso a cursos de Engenharia – e cívica que pode e deve servir de exemplo à grande maioria dos alunos do ensino secundário actual.

A TEORIA DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

Mais vezes do que aquelas que a minha paciência suporta, algumas vozes tentam convencer a opinião pública da bondade do boom operado no actual sistema educativo que se traduziu em aumentos exponenciais de cidadãos de posse de diplomas de ensino superior.

Tudo isto seria digno de encómio, ou mesmo de orgulho nacional, não se desse o caso de na percentagem de licenciados se incluírem todos os indivíduos com um pergaminho ou simples cartolina com o imprimatur do Estado que os iguala em direitos e os desiguala em deveres, numa espécie de preito a um demérito que a ética deve reprovar, a justiça obriga a rejeitar e um estado de direito não pode legitimar. Aqueles valores percentuais só são possíveis pelo desconhecimento de uma simples regra da adição no ensino primário que diz que não se podem somar pêras com maçãs.

Há quem diga que a actual situação, na qual a bolsa dos pais conta mais que a massa cinzenta dos filhos, se deve a uma louvável democratização do ensino, que faz com que indivíduos que ontem trabalhavam nas obras possam hoje pensar no acesso à universidade. Pena é, no entanto e por outro lado, que, devido ao desemprego de diplomados em engenharia, estes, por vezes sem o suficiente know-how, sofram agora o pesadelo de terem que ir trabalhar para as obras.

Ora este statu quo fica a dever-se a uma coisa bem simples, que repousa menos no direito constitucional à educação e mais no novo-riquismo da democracia portuguesa, que foi reconhecida pelo ex-ministro da Educação David Justino quando lamentava o facto de, no pós-25 de Abril, “se ter morto o ensino técnico e profissional, tendo-se perdido, com isso, quase 30 anos” (Diário de Coimbra, 10/12/2003).

Por acreditar num ensino técnico devidamente dignificado me fiz seu defensor por várias vezes nos media (v.g., “A extinção dos liceus e escolas técnicas”, Diário de Coimbra, 26/07/2001). Mas ouçamos, sobre esta temática, a voz de Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard e festejado autor da Teoria das Inteligências Múltiplas:

“Chegou a hora de alargar a nossa noção do espectro dos talentos. A contribuição mais importante que a escola pode fazer para o desenvolvimento de uma criança, é ajudar a encaminhá-la para a área onde os seus talentos lhe sejam mais úteis, onde se sinta satisfeita e competente. É um objectivo que perdemos completamente de vista. Em vez disso, submetemos toda a gente a uma educação em que, se somos bem sucedidos, a pessoa fica preparada para ser professor universitário. E, ao longo do percurso, avaliamos toda a gente de acordo com esse estreito padrão de sucesso. Devíamos passar menos tempo a classificar as crianças e mais tempo a ajudá-las a identificar as suas competências e dons naturais, e a cultivá-los. Há centenas de maneiras de ser bem sucedido e muitas, muitas capacidades que nos ajudarão a lá chegar”.

E, se é verdade que o direito à educação está estabelecido pela Constituição, igual direito se perfila no que respeita à cultura física e à prática desportiva. Mas daí a defender que o acesso à universidade deve ser para todos, independentemente das suas capacidades de trabalho, apresenta o mesmo vício de forma que considerar que aos praticantes de futebol de menor aptidão físico-motora deve ser facultada a integração nas equipas profissionais dos maiores clubes da 1.ª Liga de futebol. Em mera hipótese, suponhamos que Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo tinham sido obrigados a desistir das suas competências, para utilizar a classificação de Gardner, “corporal-cinestésicas” em favor de exigências “lógico-matemáticas ou linguísticas”. Não seriam eles hoje indivíduos a aumentar os números do desemprego e do insucesso escolar, mesmo que escamoteados em dados estatísticos para inglês ver?

Por este facto, considero que colocar indivíduos no ensino técnico-profissional depois de terem falhado anos consecutivos num ensino direccionado para o ingresso em escolas de ensino superior desacredita aquele ensino tornando-o numa escolha de último recurso. Urge mudar a mentalidade de uma sociedade arreigada a padrões obsoletos de sucesso, regressando a um ensino que, a partir do 6.º ano de escolaridade, seja capaz de indicar ao aluno o caminho a seguir, segundo as suas capacidades avaliadas em testes de aptidão vocacional. E, além disso, não misturando numa mesma escola secundária alunos de “caneta” com alunos que necessitam de oficinas devidamente apetrechadas e professores com a necessária formação técnica.

Julgo ter conhecimento de causa por ter iniciado a minha carreira docente na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, da então Lourenço Marques, e ter-me deparado, décadas volvidas, com um “site” que homenageia o respectivo corpo docente em agradecimento dos seus alunos pela “formação recebida, quer como estudantes, quer como pessoas“. Reza essa homenagem:

“Naturalmente que, como em tudo, no respeitável corpo docente que ao longo dos anos leccionou na nossa escola, nem todos conseguiram ser populares, mas todos contribuíram, de uma forma ou de outra, para a nossa formação, quer como estudantes, quer como pessoas. Alguns deixaram a sua marca. (…) Ainda hoje, e eu faço notar isso aos meus filhos, eu sei o nome dos meus professores, e faço questão de realçar a sua competência. Pena que nem todos eles possam já tomar conhecimento de que também fazem parte da nossa saudade académica”.

É este ensino técnico, viveiro de profissionais de valor e de homens reconhecidos, que deve merecer o respeito dos cidadãos e o remorso de políticos que, em nome de uma sociedade sem classes, a transformaram numa sociedade desclassificada académica e profissionalmente. Só desta forma sairá reforçada uma educação, que não tenha como “única direcção a conveniência”, como escreveu Eça de Queiroz.

O Professor Rui Baptista reside na cidade de Coimbra e colabora regularmente no blogue De Rerum Natura.


Novembro 15, 2010

O PROFESSOR RUI BAPTISTA

Filed under: 2010 anos, DESPORTO MOÇAMBIQUE, Rui Baptista — ABM @ 4:55 am

Quando o professor Rui Baptista passeava por Lourenço Marques, parava o trânsito.

O Professor Rui Baptista, que hoje vive em Coimbra, para onde se radicou após sair de Moçambique aquando da Independência, deixou uma marca no desporto moçambicano. Tendo sido durante vários anos professor de ginástica na Escola Industrial, era um intelectual do desporto e foi um grande defensor da utilização de pesos e halteres como parte do treino dos atletas e da ginástica como parte integrante da vida dos cidadãos. Adicionalmente à sua formação pelo INEF, participou como dirigente desportivo e ainda liderou a área de estudos da Sociedade de Estudos de Lourenço Marques.

Foi em boa parte com o seu envolvimento, primeiro através da estrutura da Mocidade Portuguesa, mas de que cedo se autonomizou, que se introduziu em Lourenço Marques a prática do mini-básquet, mais tarde celebrizado em aguerridos e concorridos campeonatos na cidade, e de cujos praticantes saíram jogadores de elevada craveira como o jogador (e hoje treinador) Carlos Lisboa.

A apresentação de uma palestra do Prof. Rui Baptista, publicada no Noticias de LM em 2 de Julho de 1973.

O prof. Rui Baptista nos seus tempos de Moçambique.

De entre as suas várias intervenções, conta-se Da Preparação Física do Jogador de Futebol, apresentada no Colóquio de Treinadores de Futebol em 1967, e ainda Minibasquete – subsídios para o estudo da respectiva introdução em território nacional, apresentada no ciclo de Colóquios da L.A.G. em 1971.

Hoje, com 79 anos, o Prof. Rui Baptista continua activo como sempre, tendo publicado e feito palestras e escrevendo ainda regularmente no blogue De Rerum Natura. O Delagoa Bay tem na calha publicar um texto que o Prof. Rui Baptista escreveu recentemente.

Contactado para assistir nesta peça aqui inserida, o Prof. Rui Baptista solicitou que se enviasse os seus cumprimentos e um abraço a todos os que o conheceram e com quem privou em Moçambique e em Portugal.

Fotografia actual do Professor Rui Baptista.

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