THE DELAGOA BAY COMPANY

Abril 5, 2011

A HISTÓRIA DO FAZ-TUDO

(Tinha inserido este texto noutro lugar mas autonomizei-o aqui).

Quando eu era pequeno, o Faz-Tudo da piscina do Desportivo (pagava para saber o seu nome de berço) era quem tomava conta da piscina do Desportivo e mantinha as tropas na ordem. Era um homem negro, parecia-me na altura incrivelmente velho, respeitado, parecia que estava há uma vida na Clube.

Acho que faleceu antes de 1974.

A sua importância em particular em termos da família Botelho de Melo foi um episódio, ocorrido na primeira metade dos anos 1960, num domingo de manhã solarento em que os Botelhos de Melo, como muitos, foram passar a manhã à piscina do Clube. O episódio foi-me contado pela minha mãe. A piscina grande estava cheia de gente, música a berrar no megafone debaixo da prancha dos 10 metros e miudagem a correr por todos os lados, os adultos sentados em conversa. A certa altura, portanto, ninguém reparou que o meu irmão Fernando, que estava a brincar com uma bola, foi atrás dela, na direcção da piscina grande e …caíu dentro de água. Ninguém reparou, excepto o Faz-Tudo, que viu o Nando a afundar-se. O Faz-Tudo não sabia nadar. Mesmo assim, vestido, lançou-se para dentro de água, desceu até ao fundo da piscina e trouxe o meu irmão para a superfície, já azul. Os meus pais apanharam o mais valente susto. Com algum esforço, ele recuperou a consciência, mas, devido ao incidente, durante anos e anos ficou com alguma gaguez. Os meus pais ficaram eternamente agradecidos ao Faz-Tudo e a partir dessa altura todos os anos no fim do ano davam-lhe uma prenda, como sinal de agradecimento pelo que ele havia feito naquele dia. O meu irmão hoje está vivo e de saúde (vive em Espanha). Em parte deve isso ao que este senhor fez naquele domingo de manhã na piscina do Desportivo.

A Marília Bragança, que na altura era mufana, enviou esta nota: ” 

Lembro-me tão bem desse dia!  O teu Pai estava na altura a jogar tenis com o meu, e eu estava a assistir.

Houve uma grande comoção quando o Faz-Tudo começou a gritar, bem alto, algo como, “está aqui um menino… estava a morrer afogado” e os nossos pais correram logo na direção da piscina!

Mais tarde, lembro-me também de ver o Nando embrulhado numa mantinha dentro do carro, no momento em que os teus pais voltaram ao Desportivo para irem buscar os outros filhos que tinham ficado lá, quando o teu irmão foi levado para o Hospital. 

Há ocasiões que nos marcam para o resto da nossa vida e no meu caso, essa foi uma delas. (…).

O Faz-Tudo era um bom Homem  e… “All’s well that ends well.”, não é verdade?

Uma nota adicional do Victor Cerqueira: “Encontrei um dos filhos do Faz-Tudo nos GEPs. Foi um extraordinário combatente, foi ferido em combate, penso mesmo que foi condecorado (se não foi devia ter sido) foi uma alegria é uma surpresa encontrá-lo como combatente ao meu lado. Teve que fugir para o Malawi.”

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