THE DELAGOA BAY COMPANY

Dezembro 25, 2011

O THE DELAGOA BAY COMPANY FAZ DOIS ANOS HOJE

Filed under: 2010 anos, Comentário, OUTROS — ABM @ 10:58 pm

Este blogue abriu na tarde do dia 25 de Dezembro de 2009.

Desde então e até agora,

– foram feitas 1.490 inserções
– foram feitas 1.578 categorias no índice
– o blogue recebeu 297,348 “hits”
– fizeram-se 2.690 comentários
– tem cerca de 600 “seguidores” regulares

Nada, mas nada, disto, teria sido possível, sem a inestimável carolice de todos os que enviaram, ou permitiram que eu fosse colocando, as fotografias e as informações aqui colocadas à disposição de quem as quiser ver.

Agradeço o interesse partilhado neste assunto.

O tema deste blogue é todo o desporto relacionado com Moçambique ao longo das décadas. Muito mais falta fazer, quer no que concerne o desporto antes, quer depois da Independência. Para tal, conto com o renovado apoio dos desportistas e de todos os interessados no tópico, enviando fotografias e informações para o email bcaluanda@gmail.com .

Não só constitui um registo aberto do que foi feito e por quem, como poderá ajudar no estabelecimento de referências para gerações futuras.

Hoje começa o 3º ano.

Dezembro 23, 2011

BOAS FESTAS, BY MALANGATANA

Filed under: Comentário, OUTROS — ABM @ 1:06 pm

Aos que comigo partilharam o 2º ano deste pequeno blogue, e às suas Famílias, desejo Boas Festas.

Outubro 31, 2011

EVOCAÇÃO DA SOCIEDADE DE ESTUDOS DE MOÇAMBIQUE, PELO PROF. RUI BAPTISTA

Fachada da sede da Sociedade de Estudos de Moçambique, em Lourenço Marques.

(Texto da autoria do Sr. Prof. Rui Baptista)

“A história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico” (Paul Ricoeur, 1913-2005).

Escrevo hoje sobre um livro, intitulado  “Livro de Ouro do Mundo Português – Moçambique” (s/d),  da autoria da jornalista Maria Helena Bramão, que mãos amigas fizeram chegar ao meu conhecimento e em que, a páginas tantas (pp. 22 e 23) , é evocada a Sociedade de Estudos de Moçambique, “ex libris” científico, literário e cultural de Moçambique, anterior  à criação dos respectivos Estudos Gerais Universitários (1962) e depois em futura e frutuosa parceria. A esta Sociedade (julgo que extinta depois de 1975) ligam-me recordações, quase diria umbilicais, por aí ter proferido duas conferências, (“Educação Físíca – Ciência ao Serviço da Saúde Pública” e “Os Pesos e Halteres, a Função Cardiopulmonar e o Doutor Cooper”) , respectivamente, nos anos de 1972 e 1973,  vindo nela  a ser eleito para os cargos de vice-presidente da Secção de Ciências e bibliotecário (1974) e  de presidente da Secção de Ciências e 1.º secretário (1975), tendo, assim,  entrado a Educação Física pela porta principal  nesta veneranda casa “das coisas do espírito”.

Escreveu nesse livro a referida jornalista um elucidativo texto, subtitulado “Sociedade de Estudos de Moçambique – uma instituição cultural pioneira”, que transcrevo abaixo na íntegra com o esclarecimento de se reportar, apenas, à vida da Sociedade de Estudos de Moçambique até meados da década de 60:

“A Sociedade de Estudos de Moçambique foi instituída em 6 de Setembro de 1930, data em que foram superiormente aprovados os seus Estatutos, publicados pela Portaria n.° 1185, daquela data.

Resultou de um movimento inspirado pelo Engenheiro de Minas, António Joaquim de Freitas, que veio a ser o seu Sócio Fundador n.° 1. Na Circular-Convite que dirigiu aos intelectuais de Moçambique, a propor a fundação da Sociedade, mencionava António Joaquim de Freitas, ser um dos objectivos «estabelecer um convívio intelectual necessário às pessoas que vivem pelo cérebro».

Os Estatutos aprovados definiram como objectivos da Sociedade de Estudos, contribuir para o estudo e valorização económica de Moçambique; e contribuir para o desenvolvimento intelectual, moral e físico dos seus habitantes em geral, e, em especial, dos seus associados.

A António Joaquim de Freitas juntaram-se 101 Sócios Fundadores. E depois, desde 1930, muitos outros, que com esforço, dedicação e inteligência têm vindo a realizar com persistência os objectivos da Sociedade.

Foi o primeiro Presidente da Direcção da Sociedade de Estudos o Coronel Eduardo Augusto da Azambuja Martins. Sucederam-lhe o Eng.° Joaquim Jardim Granger (1932-34); o Coronel João José Soares Zilhão (1935 e 1940-41); o Eng.° Mário José Ferreira Mendes (1936-38 e 1946-49); o Comte. José Cardoso (1939); o Eng.° António Joaquim Freitas (1942-45); o Dr. António Esquivei (1950-60); o Contra-Almirante João Moreira Rato (1961-62); e o Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro (1963). O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado.

Foram nomeados Sócios Beneméritos, pelos relevantes serviços prestados à Sociedade de Estudos, o Contra-Almirante Manuel Maria Sarmento Rodrigues, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Câmara Municipal de Lourenço Marques.

A Sociedade de Estudos foi agraciada com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1956), grau de Oficial da Ordem de Instrução Pública (1960), Medalha de Ouro de Serviços Distintos da cidade de Lourenço Marques (1960) e Palma de Ouro da Academia das Ciências de Lisboa (1960).

Dentro da acção desenvolvida desde 1930, a Sociedade de Estudos tem promovido a realização de estudos, cursos, lições, conferências, congressos, exposições e sessões de cinema.

Desde 1931 que se publica o «Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique», que é presentemente trimestral.

Tem editado outras publicações entre as quais se destaca «A Cartografia Antiga da África Central e a Travessia entre Angola e Moçambique, «1500-1860» da autoria do ilustre historiógrafo Comte. Avelino Teixeira da Mota, que a dedicou ao Contra-Almirante Sarmento Rodrigues e a ofereceu à Província de Moçambique. A edição foi custeada por subsídio especial concedido pelo Governo-Geral de Moçambique, tendo-se feito a versão inglesa.

As publicações da Sociedade de Estudos são permutadas com as de numerosas instituições nacionais e estrangeiras em todo o Mundo. Foi assim organizada progressivamente uma Biblioteca de carácter enciclopédico, que conta cerca de 25 000 volumes; e uma biblioteca juvenil, com perto de 1500 volumes, convenientemente escolhidos.

O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado. A Sociedade de Estudos tem-se feito representar em diversos congressos e reuniões de carácter cultural, no país e no estrangeiro. Desde 1934 que participa nos congressos anuais da Associação Sul-Africana para o Progresso da Ciência, tendo colaborado na Organização dos Congressos de 1948 e de 1958, que se realizaram em Lourenço Marques.

Já nos Estatutos aprovados em 1930 se previa a necessidade de se conseguir ‘uma sede suficientemente ampla, cujos meios de trabalho e conforto irá sucessivamente aumentando, por forma a tornar a sua frequência cada vez mais agradável’.

Depois de grandes esforços, foi finalmente decidia a construção do novo Edifício-Sede em 1962, sendo Presidente da Direcção o Contra-Almirante João Moreira Rato, que desenvolveu valiosa acção para tornar viável a realização. Os encargos foram suportados por subsídio, concedidos pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues, pela Fundação Calouste Gulbenkian, por reservas criadas, por quotização suplementar por parte dos sócios, e por um empréstimo a amortizar anualmente.

O edifício, segundo projecto do arquitecto Marcos Guedes e o Eng.° Carlos Pó, foi executado em 1963, sob a orientação da Direcção presidida pelo Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro, tendo sido inaugurado oficialmente em 21 de Abril de 1964, pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues. Registam-se também as numerosas e várias ofertas recebidas de diversas entidades para o apetrechamento do novo Edifício-Sede.

Na sua estrutura actual, a Sociedade de Estudos compreende as seguintes secções: Artes e Humanidades; Ciências Exactas; Ciências Naturais; Ciências Sociais; Agro-Pecuária; Economia e Finanças; Engenharia e Arquitectura; Legislação e Jurisprudência; Medicina, Veterinária e Farmácia; Estudos Brasileiros; Estudos Franceses; Etnologia Africana; Feminina; e de Iniciação Cultural.

No relatório da Direcção, relativo a 1964, figura o seguinte resumo das sessões públicas realizadas naquele ano: 21 conferências; 39 conferências ou lições incluídas em cinco ciclos de conferências e cursos; 6 exposições diversas; 7 sessões de cinema; 18 sessões de cinema para jovens, com filmes educativos e recreativos.

A Sociedade de Estudos de Moçambique muito tem contribuído para o estudo e valorização da Província de Moçambique, assim como para o seu desenvolvimento moral e intelectual”.

Num país agora confinado às suas fronteiras europeias e, por vezes, de costas voltadas para um passado, mais ou menos, recente, entendo, em nome de uma necessária justiça e apego à memória dos factos, que a juventude portuguesa deve ser despertada para as realizações portuguesas além-mar como esta sobre o valioso espólio científico e cultural da Sociedade de Estudos de Moçambique até 25 de Junho de 1975, data da Independência deste jovem e promissor país do continente africano. E numa altura de lamúrias sobre o nosso presente e descrença sobre o nosso futuro como nação secular, tento encontrar réstias de esperança em Eça quando, como agora, o revisito: “Uma nação, vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas – mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas”.

Junho 15, 2011

SOBRE O DESPORTO ESCOLAR, PELO PROF. RUI BAPTISTA

Filed under: 1960 anos, Comentário, DESPORTO MOÇAMBIQUE, OUTROS, Rui Baptista — ABM @ 10:36 pm

Texto e foto gentilmente enviados pelo Senhor Prof. Rui Baptista.

Bem se desunham os actuais responsáveis pelo desporto escolar em tentar prover o seu desenvolvimento. Tarefa ingrata…e sem frutos que se veja quando comparado com a obra levada  efeito pela extinta Mocidade Portuguesa (MP) tentando esconder o seu esqueleto no armário da sua mediocridade. Como é do conhecimento de quem viveu esses tempos, a MP foi alfobre de muitos atletas e até campeões olímpicos, mormente na Vela e na Esgrima. Eram dedicadas ao desporto escolar as tardes de quarta-feira e as manhãs de sábado.

Este texto constitui prova do que se passava em Moçambique. Chamo a atenção da luta que mantive com o Comissariado da MP para que o desporto escolar se não encontrasse divorciado do desporto federado. Consegui-o com a criação do Centro Desportivo Escolar de Lourenço Marques (CDELM) que  só tinha paralelo na então Metrópole, mas a um outro nível: reporto-me ao CDUL (Centro Desportivo Universitário de Lisboa). Neste particular, quer a Escola Industria Mouzinho de Albuquerque, quer a Escola Comercial Dr. Azevedo e Silva, quer ainda o Liceu Salazar (“last but not least”) muito animaram os campeonatos escolares com campeonatos provinciais e nacionais.

Rui Baptista

Artigo publicado na Tribuna, um jornal de Lourenço Marques no dia 24 de Março de 1964.

Junho 3, 2011

BREVES SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DO CULTURISMO EM MOÇAMBIQUE, PELO PROF. RUI BAPTISTA

O esplêndido edifício do templo maçónico de Lourenço Marques, na Avenida 24 de Julho, em meados dos anos 1920. Choca ver que, sendo ainda hoje em Portugal a maçonaria assunto de faca e alguidar, em Moçambique era assunto tratado à vista de toda a gente. Poucos anos depois veio o novo regime e o edifício foi convertido na Escola Industrial - e onde o Prof. Rui Baptista ajudou a formar gerações futuras. Suponho na altura que os maçónicos voltaram todos de volta para o undergound.

(texto da autoria do Sr. Prof. Rui Baptista)

Respondendo ao amável convite do meu amigo António Botelho de Melo (Tomané), sempre pronto em noticiar acontecimentos desportivos ocorridos nessa saudosa terra do Índico, eis-me aqui novamente, com o prazer que me dá recordar esses tempos.

Começo  por transcrever pequenos excertos de uma longa entrevista por mim dada ao jornal moçambicano “NOTÍCIAS” (23/09/1963), em  vésperas da realização dos “Campeonatos Abertos de Bench Press”, inseridos nas Comemorações do 39º ano do Clube Ferroviário de Moçambique:

“Natural me parece que o Ginásio apresente uma equipa mais forte. Fundamenta-se esta minha convicção na existência da sua secção de Pesos e Halteres ainda mesmo antes da minha chegada a esta  cidade vai para cima de seis anos. O Ferroviário tem a sua secção a funcionar  há mais ou menos dois anos. Forçosamente, este é  um factor a ter em  consideração. Seja como for, a equipa que treino  vai na disposição de discutir o primeiro lugar, já que o segundo está desde já ao seu alcance!!! O que mais importa é o progresso da modalidade que só será possível e desejável  com competições deste género.

O júri deste concurso  é constituído por um presidente (convidado pelo Ferroviário)  e por dois juízes: um do ginásio e outro  do clube organizador (Ferroviário). Foi convidado para presidir ao júri , o Delegado da Federação Portuguesa de Ginástica em Moçambique , o major Garcia Alvarez,  sendo os juízes por parte  do Ginásio e do Ferroviário, respectivamente, os senhores Carlos Costa e Epifânio Cunha.

Tínhamos ouvido o suficiente para esclarecermos os nossos leitores do que será a realização dos ‘locomotivas’  no campo dos pesos e halteres.

Agradecemos ao professor Rui Baptista a atenção dispensada e ele lá foi  para a sua tarefa de contribuir para que a juventude local se torne mais forte e saudável pela cultura física , praticada em bases pedagógicas certas,  de experiência e saber feitas por quem sabe o que quer e para onde caminha, através de uma acção profissional assente em preparação que se torna indispensável para bem servir e cumprir!”

Finalmente, na noite de 28 de Setembro de 1963, realizou-se, no Ginásio do Clube Ferroviário, repleto de um público entusiasta, a referida competição com a participação de sete atletas do Ginásio de Lourenço Marques, 12 do Clube Ferroviário de Moçambique e um independente. Dou agora notícia dos atletas classificados nos primeiros três lugares das três categorias: leves, médios e pesados. Assim:

CATEGORIA DE LEVES (atletas com o peso corporal até 67,5 quilos )::

1.º Carlos António (Carvalhinho), do Clube Ferroviário de Moçambique (CFM) com o peso corporal de 60 quilos, e o levantamento de 101,925 quilos.

2.º Pedro Laranjeira, do CFM, com o peso corporal de 62,5 quilos, e o levantamento de 86,07 quilos.

3.º Artur Roxo, do CFM, com o peso corporal de 65,1 quilos, e o levantamento de 86,07 quilos.

CATEGORIA DE MÉDIOS ( atletas com o peso corporal até 82,5 quilos):

1.º Rui Baptista, do CFM, com o peso corporal de 75 quilos,  e  o levantamento de 122,31 quilos.

2.º Veloso do Amaral, Ginásio de Lourenço Marques (GLM), com o peso  corporal de 71,9 quilos, e o levantamento de 117,78 quilos.

3.º Manuel Carvalho (Baião), do GLM, com o peso corporal de 79,5 quilos, e o  levantamento de 117,78 quilos.

CATEGORIA DE PESADOS (atletas com o peso corporal acima dos 82,5 quilos):

1.º José Coelho, do CFM; com o peso corporal de 90 quilos, e o levantamento de 134,08 quilos.

2.º Leong Siu Pun, do GLM, com o peso corporal de 83,2 quilos, e o levantamento de 131,37 quilos.

3.º Fernando Morgado, do CFM, com o peso corporal de 85,5, eo levantamento de 80,6 quilos.

Para a classificação por equipa (conforme constava do regulamento do concurso) foram atribuídos 3 pontos ao 1º. classificado de cada uma das categorias, 2 pontos ao 2.º classificado e 1 ponto ao 3.º classificado. Venceu a competição a equipa do Clube Ferroviário de Moçambique com  13 pontos, tendo a equipa do Ginásio de Lourenço Marques obtido 5 pontos.

Julgo de interesse referir que nesse tempo os esteróides, substâncias aceleradoras do crescimento da massa muscular e aumento da força,  não  constavam da preparação “química e criminosa” destes atletas tornando estes resultados  de grande nível nacional (não tenho dados comparativos que  me permitam considerar uns tantos como recordes nacionais). Mais esclareço que todos estes resultados estão certificados por dois  artigos do jornal  “Tribuna” (respectivamente publicados  em 29 de Setembro e 1 de Dezembro de 1963), cujos recortes mantenho em meu poder numa pasta de artigos que o tempo e as traças tentam destruir.

Por último, seria interessante que algum ou alguns dos atletas que participaram neste Campeonato enriquecessem este modesto post com os seus comentários. Seria uma forma de avivar a recordação desses tempos e estabelecer contacto  com atletas que muito dignificaram o culturismo moçambicano. Valeu?

Março 31, 2011

LOURENÇO MARQUES/MAPUTO, OS PESOS E HALTERES E O DOUTOR COOPER, POR RUI BAPTISTA

Filed under: 1970 anos, 2010 anos, Comentário, CULTURISMO, Rui Baptista — ABM @ 10:47 pm

O texto que se segue é da autoria do Sr. Professor Rui Baptista.

Os processos da ciência são característicos da acção humana, porque se movem pela indissolúvel união do facto empírico e do pensamento racional. – J. Bronowski.

Faz parte do meu passado de dezoito anos, na então Lourenço Marques, e do meu grato retorno, ainda que por escassos dias, a Maputo, este trabalho de investigação sobre os Pesos e Halteres (na modalidade de Culturismo) que os tenho como factor muito favorável para a saúde cardiovascular dos seus praticantes se livre de substâncias anabolizantes que anulam por completo esse efeito, contribuindo até para um rol de doenças que arruínam não só o coração como outros órgãos vitais conduzindo-os, por vezes, à sua própria falência.

Vivia-se, então, uma época em que era atribuída à sua prática, pela “vox populi”, e mesmo pela maioria de professores de Educação Física e médicos, diversos mitos sobre os seus malefícios de que destaco três: 1. Fazer mal ao coração; 2. Prender os músculos; 3. Prejudicar o crescimento do esqueleto dos jovens.

O doutor Kennet Cooper fez-se advogado dos malefícios dos Pesos e Halteres para a saúde cardíaca no seu livro “Capacidade Aeróbica” (1972), com a autoridade que lhe advinha da sua profissão de médico e investigador com tamanho interesse pela prática desportiva que na respectiva licenciatura defendeu tese no campo da fisiologia desportiva, entrando, anos depois, para o serviço da Força Aérea onde passou a ter a responsabilidade pelo exigente treino físico dos astronautas norte-americanos. Assim, escreveu ele: “Os levantamentos de peso não aumentam o fluxo da corrente sanguíneo”.

Ou seja, Cooper tornou-se o representante de um sólido axioma pelo arsenal científico de investigação que envolveu um número inicial muito representativo de 5.000 “cobaias”, militares da Força Aérea. O previsível entusiasmo que o seu livro iria despertar em todo o mundo levou um senador norte-americano a considerá-lo “como uma valiosa contribuição para uma América mais sadia”. E o panegírico do senador não se ficou por aqui: “Tenho a certeza de que quando o livro for um ‘best-seller’ (e quanto a isso não tenho a menor dúvida) irá contribuir mais para a saúde e longevidade dos americanos do que qualquer outra descoberta ou realização do ano no campo da Medicina”. Verdade seja dita: a venda deste livro e sua divulgação excedeu largamente as expectativas porque lido, quase como uma bíblia para a aquisição de uma boa forma física, por um incalculável número de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do globo.

Foi, portanto, neste clima de polémica de David contra Golias, que tive o “arrojo”, e ao que sei em acção pioneira, de proferir uma conferência, em 2 de Julho de 1973, na “Sociedade de Estudos de Moçambique”, agremiação científica e literária, Palmas de Ouro da Academia de Ciências de Lisboa, intitulada “Os pesos e halteres e a função cardiopulmonar segundo o teste de Cooper”. Teve esta conferência uma crítica bastante favorável por parte da imprensa moçambicana.

Ampliei esta conferência com um outro estudo sobre os efeitos dos Pesos e Halteres nos valores da tensão arterial dos respectivos praticantes, tendo procedido às respectivas medições o Drs. Jorge Pessoa Monteiro, assistente do Curso de Medicina da Universidade de Lourenço Marques, e o recém-licenciado em Medicina Raul Silveira, atleta de competição de atletismo. De posse destes estudos, mês e meio depois, publiquei um livro com 97 páginas intitulado “Os pesos e halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper.

Em 1997, apresentei, integrada no “V Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa” (Maputo, 24-28 de Março), uma Comunicação intitulada “Modificações tensionais provocadas pelo levantamento de pesos”.

A importância deste Congresso foi posta em destaque, através da seguinte mensagem: “A realização deste já prestigiado evento em Moçambique constitui um motivo de honra, orgulho e alegria para nós Moçambicano, para a Universidade Pedagógica e muito particularmente para o corpo docente e discente da Faculdade de Ciências de Educação Física e Desporto. Honra por termos sido convidados a fazê-lo, orgulho por estarmos a cumprir o desafio e alegria por recebermos nesta nossa modesta e ainda muito jovem Faculdade colegas dos mais variados pontos do mundo que comunicam em Língua Portuguesa”.

Finalmente, em 2002, por saber do grande prestígio que desfrutava no mundo da fisiologia do exercício físico, acrescido do facto de ser um dedicado praticante de pesos e halteres, enviei o meu livro “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper” ao Doutor José Maria Santarem, doutor em Medicina pela Universidade de S. Paulo (Brasil), senhor de um invejável e longo currículo de que enuncio, apenas: 1) Coordenação de Cursos de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo (CECAFI) em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento; 2) Coordenador do Ambulatório de Atividade Física da Disciplina de Geriatria da referida Faculdade,; 3) Autor do capítulo “Treinamento de Força e Potência” da obra “O Exercício – Preparação Fisiológica, Avaliação Médica, Aspectos Especiais e Preventivos”. Mereceu o livro uma crítica lisonjeira, cujo “fac símile” é apresentado numa das fotografias aqui publicadas. Desta forma, julgo ter ficado demonstrado que em Moçambique os Pesos e Halteres mereceram estudos pioneiros de investigação numa época em que o nome de Kenneth Cooper desacreditava fortemente a sua prática.

Tal facto, por si só, justifica a extensão deste meu texto em relato de uma acção em defesa de uma prática desportiva que teve atletas valorosos em Moçambique, terra da minha saudade da sua gente e de uma vida profissional aí decorrida durante aproximadamente duas décadas.

Nota final: Esclarece-se que os atletas testados não praticavam qualquer forma de corrida associada à prática dos pesos e halteres por existir o mito de que a corrida era desfavorável ao crescimento muscular. Este teste realizado nos dias de hoje teria como resultado não se saber até que ponto a corrida poderia influenciar os respectivos resultados.

As fotografias aqui publicadas e legendadas mais não pretendem do que documentar o respectivo texto:

Apresentação do palestrante.

 

Notícias, 3 de Julho de 1973.

Diário, 3 de Julho de 1973.

Vista parcial da assistência à conferência na Sociedade de Estudos de Lourenço Marques.

Diário, 23 de Agosto de 1973.

A Tribuna de 8 de Setembro de 1973.

Pôr do sol no Hotel Cardoso em Maputo, durante o Congresso. À direita do Prof. Rui Baptista o Dr. Joel Matias Libombo, Vice-Ministro da Cultura, Juventude e Desportos de Moçambique.

"Abstract" da comunicação do Prof. Rui Baptista no V Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa (Maputo, 26/03/97).

Comentário do Porf. José Maria Santarém ao livro "Os Pesos e Halteres, a função cardiopulomnar e o Doutor Cooper".

Fevereiro 15, 2011

SOBRE O CULTURISMO

Culturismo em Lourenço Marques. Da esquerda: Adolfo Figueiredo, (?), Manuel Carvalho (Baião), (?) e (?). Ao fundo à direita, o Clube Naval e a Ponta Vermelha.

Este texto é da autoria do Prof. Rui Baptista.

Reporta-se esta fotografia a dois praticantes de culturismo que foram meus alunos no Clube Ferroviário de Moçambique: o primeiro a contar da esquerda, Adolfo Figueiredo, também meu aluno da Escola Industrial, e Manuel Carvalho (Baião) o terceiro.

Foi-me ela enviada da Austrália pelo Baião, que aí vive desde da Independência de Moçambique, como prova muito grata para mim, de que a distância de milhares e milhares de quilómetros não enfraquece (bem pelo contrário!) uma amizade que atravessa continentes sem se perder na poeira do tempo de 57 aos dias de hoje.

Vivia-se então uma época em que se não advinhava sequer que Arnold Schwarzennegger, nascido na Áustria (30/06/1947), se viria a sagrar sete vezes “Mr. Olympia”, desempenhar papéis de acção em filmes de Hollyood e ser nomeado 36.º governador do Estado da Califórnia. Eram outros tempos. Tempos em que escrevi no meu livro esgotado(citado aqui em outras ocasiões) “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o Doutor Cooper”, Lourenço Marques, 1973, pp. 16-17, o texto que reproduzo abaixo:

Instituto Nacional de Educação Física, 1955.

Um finalista propõe-se apresentar, como dissertação final de formatura, um tema escaldante, explosivo mesmo: ‘Pesos e halteres, alguns aspectos mecânicos e anatomo-fisiológicos da modalidade’.

Expõe, com o entusiasmo dos seus vinte e poucos anos, a sua intenção ao então director da Escola, Doutor Mário Gonçalves Viana, que o escuta atenta e compreensivamente, mas que lhe pergunta de chofre: ’Pretende o Curso para o exercer como meio de sustento futuro ou tem outra actividade profissional em mente?’

A resposta foi afirmativa para a primeira destas alternativas, o que conduz ao conselho amigo: ‘Se assim é, se pretende, na verdade, obter a Carta de Curso, desista da sua intenção, porquanto os obstáculos e as dificuldades que vai enfrentar na sua defesa são quase impossíveis de superar’ [referia-se ele aos professores de uma escola superior e tradicional para quem os pesos e halteres representavam uma espécie de afronta aos conhecimentos científicos à época].

Assim, viu-se ele coagido a desistir.

Esse finalista era eu, que confesso a derrota sofrida pelo meu espírito polémico, embora prometendo a mim próprio prosseguir agora, como em outras ocasiões, na luta que sei não me trazer glória e muito menos aplausos. Unicamente a satisfação de um dever cumprido na obrigação de explicar por que pratico pesos e halteres, desde os dois últimos anos do liceu [actuais 11.º e 12.º anos do ensino secundário] e, o que é mais importante, me responsabilizo pela orientação de inúmeros praticantes desta modalidade (há doze, catorze anos? Sei lá!) nesta parcela do Índico.

Todavia, poucas obrigações terão tido para mim a imperiosidade desta e o prazer que me dá o seu público cumprimento numa instituição com a tradição científica da Sociedade de Estudos de Moçambique.

E porque este blogue é um repositório da história do Desporto em Moçambique, recordo aqui o nome de um famoso praticante de culturismo, falecido anos atrás, que conheci aquando da minha chegada a Lourenço Marques, de apelido Nascimento, mas mais conhecido por “Barbell” (nome dado às barras de aço em que se colocam os discos de peso). Esta uma singela homenagem que muito viria a ganhar se, porventura, houver quem dele possua uma fotografia e a envie para o Delagoa Bay.

Fevereiro 13, 2011

PRATA DIAS, TITO DE MORAIS, ROGÉRIO DE CARVALHO E JOÃO BOAVENTURA

O texto que segue é da autoria do Prof. Rui Baptista. A imagem fui eu que meti.

A propósito de um comentário de Augusto Martins [feito neste blogue]:

Começo por agradecer ao seu autor o facto de no seu texto referir mais uma faceta da actividade desportiva do meu Colega Prata Dias, a exemplo de um meu outro grande Amigo, também ele praticante de voos de trapézio, infelizmente também já falecido,o Dr. Augusto Tito de Morais, médico que me mereceu, recentemente, um outro post meu, publicado [recentemente] neste blogue, pelo reconhecimento da sua valiosa acção na prática dos Pesos e Halteres e como divulgador de conceitos científicos a ela atinentes.

Recordo-me das conferências que, a propósito, ambos realizámos na Associação dos Naturais de Moçambique e dos debates acalorados que mantivemos na sequência de uma conferência deste médico e professor universitário sobre a forma em obter um melhor rendimento biomecânico, sob o ponto de vista respiratório, durante a execução do “press”, levantamento de uma barra de pesos acima da cabeça com extensão dos membros superiores.

Chegámos a um ponto de impasse tal que ele, a páginas tantas, se virou para mim, dizendo publicamente: “Desafio-te a fazeres uma conferência sobre esta polémica temática”. Dito e feito. Passados alguns dias, apresentei-me para a fazer perante o mesmo público numeroso com a presença de um outro comum amigo, o Engenheiro Rogério de Carvalho. Durante cerca de uma hora explanei considerações de natureza biomecânica e fisiológica que acabaram por pôr ponto final à discussão.

Rogério de Carvalho, inicialmente, apoiante da tese de Tito de Morais, anos mais tarde, viria a escrever, com inegável brilho, o posfácio do meu livro “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper” . A páginas tantas (p. 84), escreve ele, em citação ipsis verbis:

“Se as conferências sobre pesos e halteres do Dr. Rui Baptista tiveram o seu mérito assegurado, pela autoridade do conferencista, a publicação deste livro, nem por isso, deixava de se impor como primeiro contragolpe em defesa da caluniada ginástica com pesos, como concreto e valioso passo para retirar a modalidade do campo sempre impreciso do empirismo e como meio de libertar os cultores mais timoratos da preocupação subconsciente pelo futuro dos respectivos e preciosos sistemas cardiovasculares”.

Costuma dizer-se que as palavras são como as cerejas. Quanto a mim, o mesmo sucede no encadeamento dos nossos pensamentos: começando ambos por falar de Prata Dias voou o meu pensamento para outros dois grandes amigos: Tito de Morais (por mim evocado, dias atrás num post) e Rogério de Carvalho. Seria, por outro lado, prova imperdoável de esquecimento não recordar aqui o nome de um outro praticante do Ginásio Clube Português, (Tito de Morais foi trapezista do Lisboa Ginásio de Portugal) de voos de trapézio, o meu Compadre, Amigo, e Colega João Boaventura, antigo professor do Liceu António Enes, de Lourenço Marques, com quem mantenho profícua conversa diária, para o cérebro não “enferrujar”.

Rui Baptista

Fevereiro 11, 2011

MANUEL ALEXANDRE BAPTISTA PRATA DIAS (WANGONI): IN MEMORIAM

O texto é da autoria do Prof. Rui Baptista.

O Prof. Prata Dias em 1962, no estádio coberto do Malhangalene, a entregar um prémio a uma das equipas que participaram num festival da Mocidade Portuguesa. Esta foto aparece mais à frente na totalidade, e foi enviada muito generosamente por Eduardo e Cristina Horta. Muito grato.

O recente post aqui publicado, “António Trindade a jogar ping pong, anos 60” (29/01)2011), sugere-me a oportunidade e a justiça deste pequeno texto.

Lembro-me bem de António Trindade, com quem convivi mais de perto numa altura de que uma das suas filhas foi por mim acompanhada num tratamento de ginástica correctiva ou de reabilitação como hoje se chama. Os seus despiques de ténis com Prata Dias eram famosos em Lourenço Marques chamando aos courts do Cube de Ténis de Lourenço Marques um público entusiasta que torcia ora por um ora por outro. Eram dois estilos de jogo diferentes de dois belíssimos jogadores que alternavam entre si o título de Campeão de Moçambique. Julgo até que ambos chegaram a ser campeões de ténis de Portugal, um Portugal que ia do Minho a Timor espalhando o seu nome e a sua gesta pelos cantos do mundo.

E já que vem ao caso o nome do meu Colega Prata Dias, membro de uma família ilustre e antiga da então Lourenço Marques, ao que me disseram falecido anos atrás no Brasil para onde se dirigiu depois da Independência, é justo recordar que se tratava de um atleta completo, tendo vencido vários Campeonatos Universitários, em outras modalidades desportivas (atletismo e natação) em representação do antigo INEF, hoje Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.

Este um singelo preito (em que me atrevo associar o The Delagoa Bay Company) a um Colega e Amigo dele bem merecedor. Melhor, merecedor de uma Homenagem que faça esquecer o hábito ancestral e bem português de depreciar os vivos e esquecer os mortos que da lei da morte se foram libertando, como escreveu o Vate.

A história também é feita de testemunhos de quem foi seu contemporâneo. Seja ela feita pelo entusiasmo e obra digna de louvor de António Botelho de Melo que a espalha pela grande família moçambicana e urbi et orbi em milésimos de segundo com a ajuda de uma memória, por vezes, enfraquecida de quem presta os seus testemunhos orais, escritos ou por imagens fotográficas. Não é bem verdade, ao que se diz, que recordar é viver outra vez?

(fim)


Notas adicionais de ABM à crónica do Prof. Rui Baptista

1. O sítio da Federação Portuguesa de Ténis na internet indica que Prata Dias foi campeão nacional de ténis uma vez.

2. O texto abaixo revela o que sucedeu com Prata Dias e a sua família. Como corolário, encontrei referências laudatórias do Prof. Prata dias pelos hoje treinadores de ténis brasileiros Miguel Kelbert (“um dos tenistas e professores mais conhecidos do Estado, Miguel Kelbert começou a jogar ainda cedo no Grêmio Náutico União, sob a orientação do professor Prata Dias. Atualmente Miguel integra o team de professores da Academia TopSpin, na Associação Hebraica, além de disputar torneios pelo Rio Grande do Sul, colocando “medo” nos adversários mais jovens”) e Luiz Siqueira (“Tive a oportunidade de aprender, fazer cursos e clínicas com grandes nomes, como Kirmayr, treinador da Gabriela Sabatini, e também com o grande Prata Dias, dono de uma técnica inesquecível”)

3. O brasileiro Jornal da Orla, edição de 31 de Outubro de 2010, publicou o seguinte texto, assinado pelo colunista Sr. José Carlos Silvares, que creio ser relevante e se reproduz em seguida, com vénia:

Título: Campeões do Além-Mar

Ainda havia muito medo nos olhos de todos. O mais velho, um professor campeão de tênis, ao lado da mulher, da filha, do genro e das três netas, apesar de tudo, conseguia falar de esperança. Eles fizeram parte talvez da primeira leva de refugiados de Moçambique a chegar ao Brasil naquela época de pânico que tomava conta da colônia portuguesa no continente africano.

Era janeiro de 1975 quando o cargueiro italiano “Calagaribaldi” finalmente atracou no Porto de Santos. A passagem de ano em alto-mar foi um divisor de águas para a família Prata Dias. Todos se abraçaram a bordo e agradeceram a Deus por estarem ali sãos e salvos, embora no rumo do desconhecido.

Encontrei um professor Prata Dias ainda em pânico. Em seu primeiro contato com um brasileiro, na porta do camarote, ele começou a contar a aventura que foi conseguir as vagas no navio, após uma espera de 48 dias até a chegada do cargueiro italiano.

“Posso dizer que Moçambique foi totalmente transformada em campo de batalha, e a indecisão é o ponto marcante na vida de inúmeras famílias, que não sabem o que fazer. Algumas, com posses, foram para países distantes; outras, com menos recursos, invadem a fronteira com a África do Sul; e há os que simplesmente esperam, para ver o que vai acontecer nos próximos dias”. Foram suas primeiras palavras a um jornalista cheio de perguntas a fazer.

O professor completava: “Há muito pânico e receio, e a incerteza do que está para acontecer tem levado famílias ao desespero, fugindo e deixando parentes, terras e até roupas”. Das 300 mil pessoas que moravam na região de Lourenço Marques, capital e principal porto do país, cerca de 130 mil já tinham fugido, muitas a pé.

Moçambique vivia tempos de guerra civil, de ódio racial, na luta por sua independência de Portugal, liderada pela Frente de Libertação de Moçambique, a Frelimo. Lisboa tinha vivido a Revolução dos Cravos em abril de 1974 que depôs o regime ditatorial e as colônias buscavam a independência a qualquer custo. A família Prata Dias já estava no Brasil quando isso aconteceu, em junho de 1975.

Com medo de ser assassinados, os portugueses de Moçambique tomaram rumos diferentes. O professor Manuel Alexandre Baptista Prata Dias, então com 53 anos, fez o que achou que deveria fazer: lutou por passagens em um navio qualquer, para qualquer lugar. Juntou seus familiares, encaixotou os 312 troféus e centenas de medalhas que ganhou durante 23 anos em torneios de tênis, alguns internacionais, catalogou seus documentos como professor de Educação Física com especialidade em tênis, com diploma dos Liceus do Ultramar, e às vésperas do Natal de 1974 conseguiu embarcar.

A bordo ele soube que o navio iria para o Porto de Santos. No mar, lendo uma revista, encantou-se com imagens de Porto Alegre e decidiu: adotaria a cidade para reiniciar a vida. Tudo o que tinha na bagagem eram planos. Um deles, de lecionar numa universidade e de voltar a dar aulas de tênis.

Senti muita determinação do professor com relação ao seu futuro no Brasil, até então totalmente desconhecido e incerto, e procurei transmitir essa firmeza de meta como um exemplo a ser seguido, na reportagem publicada na época. Mais incerto e desconhecido, para ele e sua família, era o futuro em Moçambique. “Queremos uma vida melhor”, disse, ao lado da mulher Maria Teresa, da filha Maria, do genro José Armando Ribeiro Fernandes e das netas Lycia, Ariana e Ágata.

O professor tinha uma curiosidade em seu currículo. Ele nasceu a bordo de um navio alemão, o “Wangoni”, numa viagem dos pais entre dois portos sul-africanos, e sua certidão de nascimento trazia como sendo natural do navio. Quando completou 18 anos, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, foi chamado pela Alemanha para integrar o quadro do Exército, já que havia nascido no navio, considerado território alemão. Ele não foi e no ano seguinte resolveu mudar a certidão como nascido em Moçambique.

O "Wangoni", a bordo do qual Manuel Prata Dias nasceu em 1922, sob bandeira alemã. Em 1940, os alemães tentaram recrutá-lo para a guerra. Ele mudou a certidão de nascimento para dizer que nascera no território então português de Moçambique. E ficou em Lourenço Marques.

O professor lembrou esse fato para dizer que se tivesse ido para a Alemanha teria mudado o seu destino. Acabaria mudando muitos anos depois por força de outra guerra, em seu país.

Nunca mais ouvi falar da família. Soube muitos anos depois que o seu sonho de lecionar tênis foi realizado até à morte. Um dos clubes em que foi técnico foi o Grêmio Náutico União, de Porto Alegre. Alguns de seus alunos, como havia acontecido no passado, agora no Brasil, tornaram-se campeões de tênis. Um deles, Miguel Kelbert, sempre faz questão de referir-se a ele como o seu primeiro e saudoso professor.

Escrevi depois muitas outras histórias de refugiados que chegaram ao Porto de Santos, ao acaso ou não, fugindo de Angola e de outros países, fugindo do medo, fugindo do futuro incerto, em tentativas de recomeçar a vida em condições mais favoráveis. A história dos Prata Dias, no entanto, por algum motivo, sempre me vem à memória.

São histórias que lembram a dos milhares de imigrantes que, como meus antepassados e os antepassados de muitos leitores, vieram para o Brasil e aqui se firmaram no trabalho nas cidades, em fábricas, ou no campo, plantando café e colhendo seus descendentes. São cidadãos de além-mar, campeões de além-mar, trazidos por navios ou aviões, a reconfirmar que, quando se quer, tudo é possível e tudo é vitória.

(fim)

Fevereiro 10, 2011

UMA NOTA DO PROF RUI BAPTISTA SOBRE AUGUSTO TITO DE MORAIS

Filed under: 2010 anos, Comentário, OUTROS, Rui Baptista — ABM @ 12:35 pm

Augusto Tito de Morais

Creio que, algo desmerecidamente, a pessoa e obra do Dr. Augusto Tito de Morais “sofre” alguma desatenção por contraste com a atenção dada ao seu irmão Manuel, este com um distinto percurso profissional mas principalmente político, que inclusive foi alvo de exéquias no centenário do seu nascimento.

E foi a propósito dessas exéquias que o Sr. Professor Rui Baptista escreveu a crónica que segue, a qual foi primeiro publicada no excelente blogue  De Rerum Natura.

PESOS E HALTERES: EM MEMÓRIA DE AUGUSTO TITO DE MORAIS

Deparei-me hoje com um blogue de homenagem a Manuel Tito de Morais, um dos fundadores do Partido Socialista, no 100º aniversário do seu nascimento. Nele, Pedro Tito de Morais recorda, entre outros familiares, o seu tio Augusto Tito de Morais, também já falecido, professor catedrático do Instituto de Medicina Tropical, médico da Organização Mundial de Saúde que, nessa qualidade, viajou pelas sete partidas do mundo.

A páginas tantas, escreve que ele “aos 20/30 anos foi trapezista e tinha muito orgulho nisso”. Pela minha parte, julgo de interesse acrescentar ao seu currículo desportivo a sua qualidade de dedicado praticante de pesos e halteres, como escrevi na dedicatória de um dos meus livros, publicado em 1972, Os pesos e halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper.

Reza essa dedicatória:

Dedico este livro a Augusto Tito de Morais, grande entusiasta dos pesos e halteres, companheiro das lides desportivas, médico virado para os problemas da investigação, no Instituto de Investigação Médica de Moçambique, e, sobretudo, querido Amigo.

Um objectivo comum nos unia: a divulgação da modalidade, como meio seguro em preservar a saúde, e a sua intransigente defesa. Daí, o despontar de uma indefectível amizade.

Ao serviço dos ‘ferros’ pusemos os nossos conhecimentos sobre o corpo humano, transmitindo-os aos outros, sem jactância, por conferências proferidas na Associação dos Naturais de Moçambique, e nos debates que se lhes seguiam, sempre calorosos, norteados no amor à Cultura Física e na procura de um mesmo fim, através de proposições diferenciadas ou caminhos divergentes, qual deles o mais apressado na desmistificação dos sobranceiros contraditores dos pesos e halteres. [De entre eles, o supracitado doutor Kenneth Cooper, autor do famoso Teste de Cooper para avaliação da capacidade aeróbica].

Abandonou, há anos, o Dr. Tito de Morais, o campo de batalha moçambicano, no alcance de novos horizontes: médico da Organização Mundial de Saúde, dedica-se, nos dias de hoje, ao seu semelhante nos mais recônditos pontos globo. Resto eu, que aqui de Moçambique, lhe envio “sem saber se o recebe ou não” o amplexo forte do camarada de armas que prossegue a luta na lembrança de antigas escaramuças que estão longe de ter conduzido à vitória final.

A verdade tem o seu preço, tanto mais elevado quanto menor o número daqueles que a procuram.

Na altura, enviei-lhe o meu livro. Encontrava-se então Augusto Tito de Morais em missão no Cambodja. Passados meses, tive a confirmação da sua recepção por carta do destinatário.

Anos mais tarde (2001), enviei também o livro ao médico fisiatra Prof. Dr. José Maria Santarém, fundador do Centro de Estudos em Ciências da Actividade Física e de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Brasil. Passados pouco tempo recebi o seguinte mail:

“Com muita alegria recebi o seu livro e a sua carta. Nossos ideais são comuns, e as nossas dificuldades históricas também. Felizmente hoje as evidências nos apoiam e somos ouvidos, mas é sempre emocionante lembrar os tempos em que éramos quase ignorados. Gostei muito do seu texto que, naturalmente, deve ser lido com a lembrança da situação e do conhecimento de então. Meu desejo é que um dia nos possamos encontrar e rir bastante com as dificuldades do passado. Um fraterno abraço. Santarem”.

Julgo que Augusto Tito de Morais teria gostado de saber que a nossa constante e entusiástica campanha em defesa dos vilipendiados “ferros” não foi em vão.

Janeiro 8, 2011

MENS SANA IN CORPORE SANO

David, por Michelangelo.

Este texto é da autoria do Prof. Rui Baptista, que marca presença habitual no blogue De Rerum Natura.

Inicialmente, a um post de António Botelho de Melo, intitulado “Clube Académico de Coimbra”, 1975 ( 7.Fev.2010), foi minha intenção endereçar este pequeno texto sob a forma de comentário. Pedindo ao seu autor que reproduza novamente aqui a fotografia que acompanhou o respectivo post [vide abaixo], bem ou mal, entendi merecerem estas minhas mal alinhavadas linhas um destaque maior que um simples comentário.

O leitor interessado em factos do desporto nacional (tenham eles ocorridos na Metrópole ou no antigo Ultramar Português) certamente acolherá favoravelmente esta minha decisão, a decisão de um moçambicano do coração, natural da Luanda, filho de pais de um Portugal europeu, que veio viver e refazer a sua actividade profissional em acolhedoras margens do Mondego que mitigaram, apenas, as saudades da belíssima Cidade das Acácias (Lourenço Marques) em terras do Índico.

Vem isto a propósito de, há meses atrás, ter assistido a uma interessante palestra da Professora Eugénia Cunha, docente da Universidade de Coimbra. Mal sabia eu estar em presença, para além de uma prestigiada académica, de uma destacada nadadora coimbrã. Prova evidente do casamento perfeito entre a matéria que se diz pensante e o resto do corpo.

Aliás, Ernest Krestchemer, médico psiquiatra e doutor “honoris causa” em Filosofia, o reforça: “O homem pensa com o corpo todo”. Por seu lado, contrariando o dualismo cartesiano, “res cogitans”/ “res extensa”, Jean-François Lyotard, filósofo da nossa contemporaneidade, não hesita em criticar todos aqueles que defendem que ” toda a energia pertence ao pensamento que diz o que diz, que quer o que quer; a matéria é o fracasso do pensamento, a sua massa inerte, a estupidez”. Sem me que querer alongar, respaldo-me, por último, numa figura da vida cultural portuguesa do século XX, Almada-Negreiros: “É preciso criar a adoração dos músculos”.

A equipa de natação do Clube Académico de Coimbra em 1975. Eugénia Cunha está sentada à esquerda.

Janeiro 6, 2011

NOTA DO PROF. RUI BAPTISTA: SOBRE O ESPÓLIO DA DELAGOA BAY COMPANY

Do espólio riquíssimo deste valioso blogue, em que as memórias desportivas moçambicanas (e não só!) se sucedem a um ritmo vertiginoso, recolho, embora tardiamente, o confesso, deste texto as fotografias de Margaride Fernandes (treinador da selecção de Moçambique que se deslocou à metrópole de então para disputar com raro brilhantismo os campeonatos nacionais de natação), João Passeti (treinador de natação em Quelimane), dos nadadores Graça Paiva, Carlos Freitas e João Godinho.

Desta plêiade de figuras que participaram nesses memoráveis campeonatos (em que tive a honra de ser o preparador físico e chefe da embaixada desportiva em representação do Conselho Provincial de Educação Física de Moçambique), aqui fotografadas, não constam outros nomes como, por exemplo, o do então treinador do Sporting de LM, Matos, os da grande Regina Veloso, Elza Ferreira, Fernanda Campos, Bernardete Brito, Carlos Ótão, Humberto Rodrigues, Pidigi, Guia. Penitencio-me por algum esquecimento, desde já o declaro, involuntário…

De Carlos Freitas recebi anos atrás um telefonema. De então para cá perdi-lhe o rasto, o que não invalida que lhe envie os votos de um Bom Ano que englobam todas essas figuras, ainda vivas, que participaram pela primeira vez nos Campeonatos Nacionais de Natação tornando-se os primeiros obreiros de um saga desportiva continuada por nadadores moçambicanos como, por exemplo, Dulce Gouveia e António Botelho de Melo, ambos, por coincidência, filhos de amigos meus: o engenheiro Tomás Gouveia, meu colega na docência da saudosa Escola Industrial de LM, e o Tenente Botelho de Melo, meu companheiro em lides jornalísticas de puro amadorismo.

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