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Outubro 31, 2011

EVOCAÇÃO DA SOCIEDADE DE ESTUDOS DE MOÇAMBIQUE, PELO PROF. RUI BAPTISTA

Fachada da sede da Sociedade de Estudos de Moçambique, em Lourenço Marques.

(Texto da autoria do Sr. Prof. Rui Baptista)

“A história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico” (Paul Ricoeur, 1913-2005).

Escrevo hoje sobre um livro, intitulado  “Livro de Ouro do Mundo Português – Moçambique” (s/d),  da autoria da jornalista Maria Helena Bramão, que mãos amigas fizeram chegar ao meu conhecimento e em que, a páginas tantas (pp. 22 e 23) , é evocada a Sociedade de Estudos de Moçambique, “ex libris” científico, literário e cultural de Moçambique, anterior  à criação dos respectivos Estudos Gerais Universitários (1962) e depois em futura e frutuosa parceria. A esta Sociedade (julgo que extinta depois de 1975) ligam-me recordações, quase diria umbilicais, por aí ter proferido duas conferências, (“Educação Físíca – Ciência ao Serviço da Saúde Pública” e “Os Pesos e Halteres, a Função Cardiopulmonar e o Doutor Cooper”) , respectivamente, nos anos de 1972 e 1973,  vindo nela  a ser eleito para os cargos de vice-presidente da Secção de Ciências e bibliotecário (1974) e  de presidente da Secção de Ciências e 1.º secretário (1975), tendo, assim,  entrado a Educação Física pela porta principal  nesta veneranda casa “das coisas do espírito”.

Escreveu nesse livro a referida jornalista um elucidativo texto, subtitulado “Sociedade de Estudos de Moçambique – uma instituição cultural pioneira”, que transcrevo abaixo na íntegra com o esclarecimento de se reportar, apenas, à vida da Sociedade de Estudos de Moçambique até meados da década de 60:

“A Sociedade de Estudos de Moçambique foi instituída em 6 de Setembro de 1930, data em que foram superiormente aprovados os seus Estatutos, publicados pela Portaria n.° 1185, daquela data.

Resultou de um movimento inspirado pelo Engenheiro de Minas, António Joaquim de Freitas, que veio a ser o seu Sócio Fundador n.° 1. Na Circular-Convite que dirigiu aos intelectuais de Moçambique, a propor a fundação da Sociedade, mencionava António Joaquim de Freitas, ser um dos objectivos «estabelecer um convívio intelectual necessário às pessoas que vivem pelo cérebro».

Os Estatutos aprovados definiram como objectivos da Sociedade de Estudos, contribuir para o estudo e valorização económica de Moçambique; e contribuir para o desenvolvimento intelectual, moral e físico dos seus habitantes em geral, e, em especial, dos seus associados.

A António Joaquim de Freitas juntaram-se 101 Sócios Fundadores. E depois, desde 1930, muitos outros, que com esforço, dedicação e inteligência têm vindo a realizar com persistência os objectivos da Sociedade.

Foi o primeiro Presidente da Direcção da Sociedade de Estudos o Coronel Eduardo Augusto da Azambuja Martins. Sucederam-lhe o Eng.° Joaquim Jardim Granger (1932-34); o Coronel João José Soares Zilhão (1935 e 1940-41); o Eng.° Mário José Ferreira Mendes (1936-38 e 1946-49); o Comte. José Cardoso (1939); o Eng.° António Joaquim Freitas (1942-45); o Dr. António Esquivei (1950-60); o Contra-Almirante João Moreira Rato (1961-62); e o Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro (1963). O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado.

Foram nomeados Sócios Beneméritos, pelos relevantes serviços prestados à Sociedade de Estudos, o Contra-Almirante Manuel Maria Sarmento Rodrigues, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Câmara Municipal de Lourenço Marques.

A Sociedade de Estudos foi agraciada com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1956), grau de Oficial da Ordem de Instrução Pública (1960), Medalha de Ouro de Serviços Distintos da cidade de Lourenço Marques (1960) e Palma de Ouro da Academia das Ciências de Lisboa (1960).

Dentro da acção desenvolvida desde 1930, a Sociedade de Estudos tem promovido a realização de estudos, cursos, lições, conferências, congressos, exposições e sessões de cinema.

Desde 1931 que se publica o «Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique», que é presentemente trimestral.

Tem editado outras publicações entre as quais se destaca «A Cartografia Antiga da África Central e a Travessia entre Angola e Moçambique, «1500-1860» da autoria do ilustre historiógrafo Comte. Avelino Teixeira da Mota, que a dedicou ao Contra-Almirante Sarmento Rodrigues e a ofereceu à Província de Moçambique. A edição foi custeada por subsídio especial concedido pelo Governo-Geral de Moçambique, tendo-se feito a versão inglesa.

As publicações da Sociedade de Estudos são permutadas com as de numerosas instituições nacionais e estrangeiras em todo o Mundo. Foi assim organizada progressivamente uma Biblioteca de carácter enciclopédico, que conta cerca de 25 000 volumes; e uma biblioteca juvenil, com perto de 1500 volumes, convenientemente escolhidos.

O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado. A Sociedade de Estudos tem-se feito representar em diversos congressos e reuniões de carácter cultural, no país e no estrangeiro. Desde 1934 que participa nos congressos anuais da Associação Sul-Africana para o Progresso da Ciência, tendo colaborado na Organização dos Congressos de 1948 e de 1958, que se realizaram em Lourenço Marques.

Já nos Estatutos aprovados em 1930 se previa a necessidade de se conseguir ‘uma sede suficientemente ampla, cujos meios de trabalho e conforto irá sucessivamente aumentando, por forma a tornar a sua frequência cada vez mais agradável’.

Depois de grandes esforços, foi finalmente decidia a construção do novo Edifício-Sede em 1962, sendo Presidente da Direcção o Contra-Almirante João Moreira Rato, que desenvolveu valiosa acção para tornar viável a realização. Os encargos foram suportados por subsídio, concedidos pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues, pela Fundação Calouste Gulbenkian, por reservas criadas, por quotização suplementar por parte dos sócios, e por um empréstimo a amortizar anualmente.

O edifício, segundo projecto do arquitecto Marcos Guedes e o Eng.° Carlos Pó, foi executado em 1963, sob a orientação da Direcção presidida pelo Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro, tendo sido inaugurado oficialmente em 21 de Abril de 1964, pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues. Registam-se também as numerosas e várias ofertas recebidas de diversas entidades para o apetrechamento do novo Edifício-Sede.

Na sua estrutura actual, a Sociedade de Estudos compreende as seguintes secções: Artes e Humanidades; Ciências Exactas; Ciências Naturais; Ciências Sociais; Agro-Pecuária; Economia e Finanças; Engenharia e Arquitectura; Legislação e Jurisprudência; Medicina, Veterinária e Farmácia; Estudos Brasileiros; Estudos Franceses; Etnologia Africana; Feminina; e de Iniciação Cultural.

No relatório da Direcção, relativo a 1964, figura o seguinte resumo das sessões públicas realizadas naquele ano: 21 conferências; 39 conferências ou lições incluídas em cinco ciclos de conferências e cursos; 6 exposições diversas; 7 sessões de cinema; 18 sessões de cinema para jovens, com filmes educativos e recreativos.

A Sociedade de Estudos de Moçambique muito tem contribuído para o estudo e valorização da Província de Moçambique, assim como para o seu desenvolvimento moral e intelectual”.

Num país agora confinado às suas fronteiras europeias e, por vezes, de costas voltadas para um passado, mais ou menos, recente, entendo, em nome de uma necessária justiça e apego à memória dos factos, que a juventude portuguesa deve ser despertada para as realizações portuguesas além-mar como esta sobre o valioso espólio científico e cultural da Sociedade de Estudos de Moçambique até 25 de Junho de 1975, data da Independência deste jovem e promissor país do continente africano. E numa altura de lamúrias sobre o nosso presente e descrença sobre o nosso futuro como nação secular, tento encontrar réstias de esperança em Eça quando, como agora, o revisito: “Uma nação, vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas – mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas”.

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